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Problemas ambientais e dilemas socioambientais

Tempo estimado de leitura: 18 minutos

Antes de nos adentrarmos no domínio metodológico e operacional da consultoria e assessoria ambiental propriamente dita, há que se fazer propositalmente uma distinção crucial entre o que são problemas ambientais e o que são dilemas socioambientaisHungerford, et. al. (2003) esclareceram essa distinção em um programa de capacitação educacional que visava justamente munir professores e alunos com habilidades de investigação de questões socioambientais. O modelo criado por Hungerford, et. al. é largamente utilizado na educação ambiental norte-americana pois, de forma pragmática, cruza disciplinas e promove o raciocínio crítico-científico sobre questões ambientais e sociais, sem contudo se perder em priorizações do social sobre o ambiental ou vice-versa.

Essa distinção simplifica absurdamente a abordagem que tomaremos para pensar soluções e resoluções para ambos, tanto para os problemas ambientais como para os dilemas socioambientais.

Note

Para fins deste manual, usaremos a expressão dilemas socioambientais para nos referirmos a questões socioambientais e conflitos socioambientais, considerando-os praticamente sinônimos uns dos outros.

Como consultores e assessores ambientais, analisar um problema ambiental sob a perspectiva do dilema socioambiental que emerge deste, e vice versa, analisar um dilema socioambiental sob a perspectiva do problema ou problemas ambientais que o desencadearam, ampliará os horizontes durante a proposição de soluções e resoluções para ambos. Na consultoria e assessoria ambiental, saber transitar entre estes dois paradigmas de análise é um verdadeiro superpoder. Mais do que isso, entendemos que é a chave para a convergência necessária das disciplinas, das especialidades e dos profissionais que buscam propor soluções inovadoras e consolidantes da nova cultura econômica de desenvolvimento, isto é, o desenvolvimento genuinamente sustentável.


Problemas ambientais #

Para efeitos desse manual, podemos definir problemas ambientais como sendo alterações impostas em um ou mais fatores ambientais (físicos, químicos ou biológicos) do sistema Terra (em qualquer escopo), particularmente sobre a biosfera, que desencadeiam processos de deterioração da qualidade ecológica desta, isto é, trazendo consequências negativas para o próprio sistema. Essas consequências podem ser temporárias (nos casos em que o problema é sanado com o tempo retornando o sistema ao seu estado original) ou permanentes (nos casos em que o sistema jamais volta ao seu estado original, anterior aos impactos infligidos).

Há poucas décadas atrás o problema da fauna se alimentando de resíduos plásticos em ambientes aquáticos era desconhecido, mas já existia, e vem afetando grandes grupos faunísticos.
Fonte:Freepik.

Mais importante do que isso, e apenas para fins didáticos, aqui é importante isolar o problema ambiental dos problemas sociais relacionados a este, isto é, de suas relações com os seres humanos. Iremos abordar esse assunto a seguir, quando tratarmos de dilemas socioambientais. No entanto, para fins conceituais, precisamos entender que problemas ambientais podem surgir a partir de diferentes fenômenos, inclusive fenômenos sem qualquer relação direta com a espécie humana.

A biosfera, e em particular a biodiversidade está intricadamente conectada com o meio ambiente, e vice-versa. Este mega sistema vivo influencia e está sob a influência da atmosfera, da hidrosfera, da pedosfera e da criosfera, e mais recentemente também tem influenciado, e está sob forte influência da antroposfera e da tecnosfera. A essa dinâmica de transformações vivida pela biosfera, que constantemente testa sua resistência e sua resiliência, consequentemente implicando em mais diversificação, chamamos de coevolução.

Problemas ambientais são, portanto, eventos que causam impacto negativo, facilitando ou promovendo a extinção de espécies que, por consequência diminuem a resistência e a resiliência de sistemas vivos. A resposta ecológica a esses problemas ambientais costuma ser a adaptação das populações sujeitas ao impacto, ou mesmo a completa transformação do ecossistema em outro ecossistema. Assim, problemas ambientais podem ser causados por eventos não iniciados por seres humanos (i.e., extremos de pluviosidade que causam enchentes e deslizamentos de massa, eventos de mudança climática ocorridos ao longo da história geológica, eventos geológicos oriundos do tectonismo, crescimento populacional descontrolado, etc.). Queremos dizer com isso que a biosfera lida com problemas ambientais deste o início da história da vida na Terra, e que a Terra per se, incluindo a própria biodiversidade, impõe uma carga de desafios à biosfera, independentemente da existência de seres humanos. É o jeito que a coisa é. Não esqueçamos que o oxigênio que hoje respiramos, veio depois na história da atmosfera e, na época que isso ocorreu, deve ter sido um problemão ambiental para a biodiversidade atual resolver, que não foi resolvido e mudou completamente o rumo da diversificação biológica.

Somente na idade mais recente do holoceno (em vias de uma nova era que possivelmente será chamada de antropoceno) é que temos identificado uma miríade de problemas ambientais ocasionados pela espécie humana, que se alastraram por praticamente todos os ecossistemas da Terra (Reid, W. V., et al. 2005). De fato, no que tange a influência da dispersão e transformação promovida por esta espécie no planeta, dizemos que a biosfera está vivendo o seu sexto evento de extinção em massa, em comparação aos anteriores causados por glaciações, e outros fenômenos, incluindo a queda de um corpo celeste de proporção geocatastrófica (Kolbert, E., 2014).

Atenção

Problemas ambientais são eventos que causam impacto negativo, facilitando ou promovendo a extinção de espécies que, por consequência, diminuem a resistência e a resiliência de sistemas vivos.

Note que estamos propositalmente isolando o universo social e cultural do imaginário humano, esforçando-nos para permanecer no domínio das ciências naturais, ditas duras, para que problemas ambientais sejam definidos e interpretados sob esse viés científico, antes de nos adentrarmos às suas relações com o meio social.

Com base nessa interpretação dizemos que o derramamento de petróleo no oceano que leva à destruição de manguezais, reduzindo as populações dos mais diversos seres vivos que habitam esse tipo de ecossistema, é um problema ambiental. Por conseguinte, o desmatamento de quaisquer formações florestais naturais dos biomas Mata Atlântica, Amazônia, Pampa, Pantanal, Cerrado ou Caatinga é um problema ambiental. O lançamento de efluentes industriais em corpos hídricos que reduzem as populações de seres vivos destes corpos hídricos é um problema ambiental. A deposição de resíduos sólidos industriais que contaminam os solos impossibilitando a regeneração natural da vegetação no local, é um problema ambiental. Da mesma forma, a introdução de espécies exóticas que implica na redução significativa da biodiversidade em quaisquer ambientes naturais é um problema ambiental. Sendo assim, mega erupções vulcânicas são problemas ambientais, eventos de pluviosidade extrema e terremotos também podem se constituir problemas ambientais.

Mas, precisamos expressar que a biodiversidade per se não é somente a quantidade de espécies variadas, isto é, a riqueza de espécies de um determinado local, mas essa riqueza conectada entre si em relações ecológicas cujo resultado somado confere resistência e resiliência ao sistema todo, isto é resistência e resiliência a estes eventos. É a conectância na biodiversidade que se deseja em um ecossistema resistente e resiliente. Em síntese, problemas ambientais são eventos ruins para a manutenção e perpetuação da resistência e da resiliência da vida na Terra.

Diversas áreas de atuação, diversos nichos de mercado, diversas profissões e especialidades no setor da economia de serviços que enquadramos como consultoria e assessoria ambiental estarão envolvidas em evitar, reduzir, controlar, monitorar ou remediar problemas ambientais, ou seja, impactos ambientais negativos. Por isso dizemos que profissionais deste setor necessariamente trabalham, ou deveriam trabalhar em prol da biodiversidade.

É porque estes impactos negativos, isto é, estes problemas ambientais têm relação com o ser humano e suas aspirações, que existe também a necessidade de sabermos ensinar, comunicar, protestar, e se envolver socialmente com problemas ambientais, a fim de solucioná-los de forma duradoura. É aqui que nos adentramos nos dilemas socioambientais.

Uma forma mais simples de entender onde queremos chegar é considerando que, para problemas ambientais buscaremos soluções, e para dilemas socioambientais buscaremos resoluções.

Isso se dá porque em muitos casos problemas ambientais não alcançarão a sociedade ao ponto de gerar dilemas socioambientais, que por conseguinte levar a conflitos. Existem problemas ambientais que são detectados pelas comunidades científicas, mas que não vêm à tona, ao conhecimento generalizado da sociedade para que se tornem um dilema ou um conflito. Além disso, possivelmente nem todo problema ambiental é efetivamente detectado na medida que ocorre ou piora. O desconhecimento absoluto destes à espécie humana implica consequentemente na inexistência de qualquer dilema socioambiental em torno do que não é conhecido. Há poucas décadas atrás não sabíamos nada sobre a relação do lixo plástico que é descartado nas ruas das grandes cidades com a morte de aves e mamíferos marinhos, por exemplo. Havia um problema, mas não era conhecido. Hoje esse problema ambiental está bem caracterizado e os conflitos emergentes também.

Não obstante, como veremos adiante, embora mais raros, dilemas socioambientais podem emergir de má interpretação das relações ecológicas existentes no ambiente e, portanto, dilemas socioambientais podem inclusive existir sem contudo haver de fato um problema ambiental aparente. Podemos citar aqui o exemplo de protestos contra a remoção de árvores urbanas de espécies exóticas invasoras e prejudiciais à fauna silvestre.

Note que estamos utilizando intercambiavelmente os termos dilema e conflito, e poderíamos acrescentar ainda o termo questão para nos referirmos a um conceito só, incluindo dilema socioambiental, conflito socioambiental e questão socioambiental no mesmo contexto semântico que é primariamente social.

Essa divisão de competências que queremos fomentar aqui permeará o conteúdo todo desse manual para que, na ocasião da consultoria e da assessoria ambiental, possa-se perceber essa distinção em cada situação apresentada. O que de fato existe que é um problema ambiental? O que de fato está acontecendo que é de fato um conflito socioambiental? De que forma podemos, de fato, encontrar soluções para os problemas ambientais e resoluções para os conflitos socioambientais em torno destes? Esse é o mercado para o qual entendemos que deva existir uma economia fortalecida com poder de transformar as demais economias.


Dilemas socioambientais #

Para efeitos desse manual, dilemas socioambientais (ou conflitos socioambientais ou ainda questões socioambientais) são intrinsecamente relacionados a espécie humana, que englobam um escopo ainda maior de tópicos que preocupam esta espécie, além dos problemas ambientais. Se o problema ambiental é o derramamento de petróleo no oceano, o dilema vai muito mais além, considerando o que devemos ou podemos fazer para substituir uma economia mundial enraizada em combustíveis fósseis, por exemplo. Se o problema ambiental é o desmatamento, o conflito socioambiental emergirá das incertezas em torno de alternativas para produção de commodities. Se o problema ambiental é a poluição pela deposição de materiais sintéticos não degradáveis, o dilema estará em torno da substituição dessa tecnologia e sua adoção pelas pessoas.

Dilemas socioambientais envolvem argumentos conflitantes em torno de problemas ambientais.
Fonte:Teach Engineering.

A gestão pública por unidade de bacia hidrográfica, uma realidade almejada, porém jamais plenamente alcançada no Brasil, pode demonstrar claramente como que a consultoria e a assessoria ambiental acabam se envolvendo com ambos os paradigmas de análise que estamos apresentando aqui.

Considere a bacia hidrográfica onde você reside. A disponibilidade de água em sistemas hídricos, isto é, rios e seus afluentes, flutua com a pluviosidade que por sua vez depende do clima. Veja que estamos falando do sistema Terra, e nesse caso, especificamente do simplório, porém indiscutivelmente imprescindível ciclo da água. Uma coisa tão simples como essa numa bacia hidrográfica onde existe desenvolvimento econômico intensivo pode trazer inúmeros problemas ambientais e dilemas socioambientais. A água pode estar escassa pela falta de chuva, e pode ainda estar escassa para uso humano devido a sua qualidade precária. Quantidade e qualidade de água são fundamentais para a subsistência da espécie humana e suas economias, assim como para a sobrevivência das demais espécies. Em uma região com diversos municípios ávidos por crescimento econômico, a disputa pela água boa e em quantidade boa é inevitável.

Atenção

Dilemas socioambientais (também aqui chamados de conflitos ou questões socioambientais) são profundamente enraizados na experiência humana, influenciados por nosso imaginário e nossas incertezas. Eles englobam um leque mais amplo de preocupações, indo além dos problemas ambientais estritos. A natureza dilemática desses impasses reside precisamente no fato de que podem emergir da própria forma como percebemos e interpretamos o que é, ou o que não é, um problema ambiental.

E é aqui que profissionais das mais diversas áreas do conhecimento precisam convergir para lidar com perguntas bem difíceis de responder: Que setores da economia tem prioridade? Que espécies tem prioridade? De que forma podemos assegurar quantidade de água com qualidade suficiente para todos? O que podemos fazer para reservar água? De que forma podemos tratar a água para melhorar a sua qualidade? Quem vai pagar pelos serviços e pelas obras de infraestrutura? Que estrutura institucional pode cuidar disso, considerando que o sistema hídrico atravessa nossas divisões políticas (municípios)?

Na busca pelas respostas a estas perguntas percebemos que a gestão pública por unidade de bacia hidrográfica é a mais ideal, pois estabelece a geografia natural e suas relações com os ecossistemas como a base para nos organizarmos e nos assentarmos no meio ambiente. Porém, transicionar de um sistema herdado de nossos antepassados, encrustado de tradição, crenças e culturas desconectadas da natureza, para outro que assimila o meio ambiente como norteador das decisões humanas tem se mostrado desesperadamente lento.

Não obstante, além destes problemas ambientais que disparam dilemas socioambientais de governança local ou regional, estamos agora diante do maior dilema de todos os tempos: o dilema da mudança climática, que se agrava na medida que os problemas ambientais oriundos da mudança climática se acentuam.

Apesar de décadas de esforços nas frentes de trabalho socioambiental como a educação ambiental, a comunicação ambiental, a psicologia ambiental, a justiça ambiental, a ecologia política, a economia ecológica e todo ambientalismo como um campo de manifestação social, a perda de biodiversidade não se estancou, e as alterações impostas sobre a atmosfera (que obviamente também atravessam divisões geopolíticas) estão impulsionando o sistema Terra a outro estado. Ainda não sabemos como é esse estado (veja mais no Prefácio), mas sabemos que será prejudicial ao sistema Terra existente hoje, e que tem mantido a biosfera por milhões de anos.


Qual o papel da CAA? #

Diante da variedade de problemas ambientais e de dilemas socioambientais que nos acompanham, em qualquer escopo, entendemos que o papel da consultoria e da assessoria ambiental é primordialmente jamais se entrincheirar em sua bolha específica de especialidade. Os problemas ambientais podem ser complexos, mas os dilemas ambientais superam em muitas vezes esta complexidade. Sem considerarmos o elemento humano nas soluções propostas para os problemas ambientais, as chances são enormes de em longo prazo regredirmos para a estaca zero. É o caso da eficiência e da eficácia da política nacional explícita na Lei da Mata Atlântica que preconiza a reposição florestal obrigatória. Precisamos muito mais educação para que essa política seja bem sucedida.

Precisamos nos posicionar de forma livre e receptível aos argumentos, sejam estes de quem paga a conta (o cliente) como de quem trabalha pelo interesse comum (os órgãos públicos ambientais). Mas mais do que isso, precisamos promover investimentos e chamar para a participação mais intensa, extensa e profissional das áreas humanas no universo da consultoria e assessoria ambiental.

Hoje podemos dizer que quem trabalha nesta área possivelmente já se acostumou com o acompanhamento de condições e restrições presentes nas licenças ambientais, e que o atendimento a estas regras ajuda expressivamente na redução dos mais variados tipos de poluição, isto é, abordam os problemas ambientais. O que ainda não se alcançou no modo de fazer as coisas, isto é, no conjunto da obra (desenvolvimento econômico sustentável), é a inclusão dos dilemas socioambientais.

Talvez seja isso que nos deixa com a sensação de muito fazer e pouco alcançar, onde muito do que se realiza parece existir num conto de fadas, num faz de conta riquíssimo de burocracia. Se empreendedores, consultores e gestores públicos não incluírem os profissionais das áreas humanas, isto é, aqueles que sabem percorrer os labirintos dos dilemas socioambientais, da educação de quaisquer das faixas etárias, continuaremos correndo o risco de solucionar tudo sem resolver nada.

Concluímos sugerindo que esforços de redução da poluição são essenciais à qualquer atividade econômica, mas a inclusão de esforços para estimular o aprendizado, o diálogo, o engajamento, o envolvimento das pessoas que trabalham nessas iniciativas é igualmente indispensável. Já passou da hora de incluirmos condições e restrições que trabalham a cultura empresarial para o desenvolvimento sustentável, que capacitam pessoas para uma interpretação de mundo que inclui a natureza junto da produtividade limpa, junto do lucro, junto do poder aquisitivo.

A convergência de disciplinas é fundamental tanto para solucionar problemas ambientais como para resolver dilemas socioambientais. Fonte:Freepik.

Nos próximos capítulos vamos discorrer sobre muitos aspectos operacionais da consultoria e da assessoria ambiental mais envolvida com problemas ambientais (já que este é o paradigma dominante), mas sempre que possível, incluiremos questões relevantes para envolvimento profissional e econômico na lida com dilemas socioambientais. Não apenas porque amplia o mercado, mas principalmente porque é ecologicamente necessário.

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