Pontos críticos de virada e onde nos encontramos #
Em agosto de 2024, o cientista Johan Rockström fez uma apresentação para o TED Countdown Bloomsberg Green Festival sobre os pontos de virada da mudança climática e onde nos encontramos (como humanidade e planeta) frente a esses limites (The Tipping Points of Climate Change – and where we stand). Para entender a apresentação dele é preciso entender primeiro o que são esses pontos de virada que ele identifica em seus slides. Tratam-se de pontos críticos, ou pontos de ruptura de um sistema, que alteram sua condição para um ponto em que já não é mais possível voltar atrás.
Para explicá-los brevemente, logo abaixo faremos uso de uma analogia. Recomendamos que você assista essa apresentação, pausadamente se for necessário, pois é uma das melhores compilações explicativas das ciências da Terra que já assistimos.
O que significa ponto de virada #
Icebergs são enormes massas de água no estado sólido flutuando sobre enormes massas de água no estado líquido. Dependendo de sua forma, do momento e do local onde o iceberg se encontra, isto é, das temperaturas da água e da atmosfera (o clima local), três coisas poderão ocorrer: (1) O iceberg derrete aos poucos e mais água do estado sólido passa para o estado líquido; (2) O iceberg está literalmente estabilizado onde o tanto que derrete em algum lugar de sua superfície, digamos sua parte exposta, também é o tanto que congela em outro lugar como a porção abaixo da linha d’água; e (3); O iceberg aumenta sua massa com mais água congelando no seu entorno do que derretendo. Sim, icebergs também aumentam de tamanho se as condições forem favoráveis e podem inclusive grudarem-se uns aos outros como gelo na caipirinha.
Agora, para entender literalmente os tipping points que Rockström se refere, imagine um iceberg que se desprendeu de uma geleira na Argentina, como a Perito Moreno. Na medida em que flutua pelo lago, com uma temperatura mais alta, começa a derreter. Mas, a atmosfera ainda é congelante. Aos poucos a perda de massa sólida abaixo da linha d’água vai se desequilibrando com a massa de gelo acima. Isso ocorre lentamente por processos físicos de trocas de calor e pode levar horas, ou mesmo dias e semanas se for um grandão. Os turistas observam o iceberg flutuando tranquilamente na água. No entanto, se passar tempo suficiente naquela situação, naquele processo em que o derretimento abaixo da linha d’água ocorre sem que o mesmo ocorra na mesma proporção na parte que está acima d’água, chega um ponto em que um fenômeno brutal ocorre. Sim, o iceberg vira completamente, capota em torno de seu eixo de flutuação. Nesse exato ponto em que um sistema de processos, outrora estabilizado, chega, atingindo o limite de seu equilíbrio dinâmico, ocorrem mudanças drásticas que vão rapidamente na direção de outro estado de equilíbrio.

Esse exato momento em que o iceberg vira, é o tipping point ou o ponto de virada. Neste caso, o motivador foi a força da gravidade, mas para o caso de sistemas vivos, complexos e dinâmicos, existe uma miríade de outros fatores em jogo, onde cada um pode ser um fator de virada, que conduz rapidamente o sistema para outro estado bem diferente do anterior. Assim é com o clima na Terra. A biosfera depende deste clima e este clima depende da biosfera.
Ressaltamos que a situação com quaisquer sistemas vivos, complexos e dinâmicos é a mesma. É assim com uma célula, com a homeostase no seu corpo, com os ecossistemas, com a biosfera, com o clima do planeta e inclusive com sistemas sociais humanos. Chega um momento em que não dá mais, a corda arrebenta e tudo muda, para o bem ou para o mal.
Na sequência iremos fazer uma relação sobre tipping points com o mercado ambiental, em especial com o mercado da consultoria e assessoria ambiental. Mas, primeiro vamos examinar um recorte da rica e esclarecedora apresentação de Rockström, chamando atenção para algumas de suas imagens.
Tendências de transformações planetárias #
Em sua apresentação, após uma introdução sobre a relevância das alterações de temperatura no clima da Terra, Rockström apresentou uma imagem com gráficos de tendências históricas globais para diversos fatores, os quais dividiu em dois grupos sendo: tendências socioeconômicas e tendências terrestres (do sistema Terra), conforme a imagem abaixo.

Ao analisarmos os fatores do grupo da esquerda com os fatores do grupo da direita, embora não se possa estabelecer causalidade simplesmente olhando para esses gráficos, é impossível não identificar uma forte correlação positiva entre atividades humanas e transformações no planeta Terra. Seria pretensioso demais ignorar nossa responsabilidade sobre as tendências do grupo na metade do lado direito da imagem também.
A mensagem não tão subliminar aqui é que esquerda e direita habitam o mesmo planeta que está em rápida transformação. Por rápida, nos referimos à inclinação dos gráficos. Rockström não faz essa relação política, mas na condição atual do planeta, é preciso realçá-la também. Não importa qual sejam os nossos planos, não há um planeta B. A responsabilidade de nossas ideologias é, e sempre se dará sobre todos que o habitam.
Planeta gostoso #
Na sequência ele mostra brevemente, mas de maneira bem elucidativa, as milhares de evidências factuais que estão disponíveis na comunidade científica e na mídia global que reforçam essas tendências. Isso tudo, essa maravilha de vida humana em um planeta gostoso, com um clima gostosinho e habitável para todas as espécies hoje existentes, incluindo obviamente aquelas as quais nos alimentamos, está acontecendo, de fato, em uma faixa climática delicada, rara, dinamicamente em equilíbrio, mas que também é passível de alteração brusca, tal qual o iceberg que falamos acima.
Para explicar melhor, Rockström apresentou a imagem abaixo.

Vemos acima que por toda a caminhada de nossa espécie no planeta, estivemos em uma faixa climática habitável que nos permitiu evoluir e nos desenvolver, com agricultura, artesania, indústria, cultura e civilizações ao longo dos séculos (desenvolvimento esse que em grande parte se deu sem conhecimento ou consciência ambiental, especialmente dos processos do sistema Terra). Mas ao que tudo indica, e por tudo aqui nos referimos especificamente aos termômetros nos oceanos e na atmosfera, a coisa está perigando mudar. Vem uma febre por aí.
Antes que o iceberg tombe #
Assim como o clima, Rockström identificou diversos outros fatores localizando o estado aproximado em que nos encontramos em cada um deles, que vamos apresentar mais adiante. Mas, o importante é entender que esse iceberg pode tombar, e vai certamente tombar se ignorarmos os processos que estamos interferindo com nosso modo desenfreado de viver na base da queima de combustíveis fósseis e da transformação generalizada, radical e rápida de ecossistemas pelo planeta afora.

Na imagem acima, Rockström mostra o planeta como uma esfera que está prestes a rolar sobre uma superfície irregular através do tempo, e no horizonte próximo encontra dois caminhos que levarão a um novo estado de estabilidade climática. Um leva para se estabilizar no holoceno como o conhecemos (com ciência atmosférica, geológica e biogeoquímica conhecidas), e onde evoluímos por toda história da espécie humana. O outro leva para uma situação desconhecida, isto é, que é difícil inferir como será, mas se sabe que será quente, e que dependendo do que desencadear, poderá acabar com a biosfera como a conhecemos. Isso mesmo que você leu: a mudança climática pode desencadear processos de feedback positivos capazes de eliminar uma porção significativa da vida da Terra. Não deveria ser surpreendente, mas na medida que avançamos em conhecimento da nhaca que temos feito, fica cada vez mais evidente que existe esse potencial para um desastre dessa magnitude, onde não teríamos meios para revertê-lo. Contudo, ainda podemos evitá-lo.
Por sorte não estamos sozinhos #
O planeta tem sua própria inteligência. A biosfera é incrivelmente resiliente. Os processos biogeoquímicos se entremeiam com solo, subsolo, rochas, oceano, florestas e atmosfera, tudo funcionando com uma resiliência evolutiva de mais de quatro bilhões de anos. Rockström mostra em sua apresentação no TED Countdown que existem processos naturais que estocam CO2, apesar de nossa teimosia em queimar combustíveis fósseis. Mas, esses processos de estocagem dependem do resto tudo estar também funcionando, e o resto tudo nós também insistimos em transformar e estragar, muitas vezes sem critério.
Consultoria Ambiental na Terra #
Sistemas humanos em evolução #
Conclui-se que o local de ação da consultoria e da assessoria ambiental é justamente na interseção entre o que queremos continuar fazendo (por conforto, conveniência, ou pressão) e o que precisamos que seja feito, independente da resistência dos empreendedores à mudança. A partir disso há a necessidade insubstituível de legislações, normativas e regulamentações ambientais. Para que possamos continuar em direção às futuras inovações tecnológicas almejadas, desde a medicina nanomolecularmente customizada por individuo até viagens espaciais que poderão transportar vida para planetas inóspitos, precisamos primeiro devolver equilíbrio às nossas atividades com o planeta. Tudo isso não têm a menor chance de se concretizar num planeta perdido em caos climático, onde processos de queima florestal, desertificação, poluição hídrica, erosão convulsiva da biodiversidade e guerras humanas estiverem acontecendo ao mesmo tempo.
É inconcebível, biogeoquimicamente falando, compatibilizar os efeitos da atual economia do prazer (que vive a humanidade desconexa da Terra) com o que a biosfera precisa para continuar existindo. Não dá mais. A corda está super tensionada, o iceberg pode virar a qualquer momento. Os sistemas da Terra tem limites e, como vimos acima, Rockström aponta aqueles que considera prioritários, sem os quais levaremos a biosfera ao colapso.
O ponto de virada desejado #
Seria maravilhoso se, ao invés de atingirmos pontos de virada biogeoquímicos, que comprometem a saúde dos ecossistemas, conseguíssemos na verdade atingir um ponto de virada sociocultural, econômico, intelectual, operacional, que atingisse os sistemas humanos de tal forma a encaixá-los na homeostase da biosfera. Esse ponto de virada é que precisamos alcançar, e é para alcançar esse ponto de virada que as empresas e os profissionais da consultoria e da assessoria ambiental do planeta precisam cooperar entre si. É para essa nova malha produtiva de serviços pró-conservação e pró-restauração ambiental que o conteúdo desse manual foi selecionado.
Esse é o maior objetivo dessa obra não-convencional. Chamar a atenção para o valor desse setor da economia, para a necessidade de qualificá-lo, disseminá-lo, respeitá-lo, e efetivamente incluí-lo na sociedade. Não como um estorvo ou uma dor de cabeça a mais para os empreendedores, mas como uma forma, um caminho de manter esse gigantesco geodo flutuando no espaço, continuamente no conforto do holoceno, onde toda a epopeia humana e da viva biodiversa possam ambas continuar existindo e se perpetuando. Notadamente, são os profissionais mais engajados e motivados para essa transformação necessária que estão hoje na vanguarda da consultoria e da assessoria ambiental, e é para todas essas pessoas e suas empresas que dedicamos esse trabalho.

