É importante fazer uma distinção entre custo e valor para o cliente, isto é, uma reflexão sobre quanto custam versus quanto valem os serviços de consultoria e assessoria Ambiental. Aqui não nos referimos ao custo para a empresa de consultoria e assessoria ambiental, mas o custo para o cliente, isto é, sua percepção de custo (despesa) e de valor. Queremos, com isso, apenas estimular a reflexão, contribuindo para os demais tópicos deste manual sobre precificação, para o consultor não sucumbir ao rush da elaboração de uma proposta comercial sem antes lembrar desta questão.
Na área da engenharia civil e da advocacia, os profissionais estão acostumados com esse aspecto da precificação de seus serviços. Um advogado considerará o valor da causa para o cliente, isto é, quanto este irá ganhar, ou deixar de perder com um processo concluído ao seu favor. Da mesma forma, o engenheiro civil que inspeciona as condições de segurança do sistema estrutural de uma edificação estimará o valor do patrimônio que pode ser salvo pela sua consultoria.
Nas questões ambientais não é diferente, exceto que, muitas vezes, o que pode se perder é patrimônio genético, qualidade de ecossistemas, de recursos hídricos, da atmosfera e do solo. Infelizmente, para bens comuns como estes, por mais estranho que possa parecer na sociedade pós moderna, a percepção de valor é extremamente baixa, tão baixa que ainda existem casos em que só depois de um colapso tomam-se as medidas cabíveis de remediação. Um exemplo clássico de descaso com o bem comum é a deposição de lixo nas praias, o lançamento de esgoto in natura nos cursos hídricos, e a limpeza de terrenos urbanos para evitar bichos.
As medidas de remediação, quando possíveis, são muitas vezes mais onerosas que as medidas preventivas (i.e., quanto custa um cidadão instalar sistema de tratamento de esgoto residencial ou conectar à rede de tratamento vs. quanto custa despoluir o estuário do Guaíba no RS). Grandes exemplos do que estamos falando no Brasil são o acidente com bacia de sedimentação da companhia de mineração SAMARCO e o colapso dos bairros Bebedouro, Bom Parto, Farol, Mutange e Pinheiro, em Maceió, ocasionados pela mineração de sal-gema pela Braskem.
Vejamos exemplos mais corriqueiros do dia à dia para o meio físico e para o meio biótico.
No meio físico #
O cliente fictício para essa análise é uma empreiteira interessada em uma área para edificação de um centro comercial de 5.000m². Este cliente contratou um geólogo para elaborar o laudo geotécnico da área pretendida. Estimando grosseiramente, este serviço pode custar entre 2 mil e 6 mil reais, variando significativamente para mais ou para menos, dependendo dos fatores elencados no item 14.1 desse manual, entre outros que ainda serão vistos.
Vamos usar, para fins de simplificação, o valor mais alto aqui estimado, que é de 6 mil reais.
O geólogo visita a área e solicita vários pontos de sondagem. Ao analisar o perfil de solo e rocha encontrados, considerando ainda a topografia da área e seu entorno, o cálculo das massas, a declividade, o sistema de drenagem natural, a capacidade de saturação do solo, evidências no material rochoso e outros fatores observados em campo, cruza essa informação com dados históricos da região sobre deslizamentos e conclui que a área não é segura para edificação. O profissional legalmente habilitado para tal serviço emite o laudo técnico, onde consta seu parecer conclusivo sobre a área: “não recomendável para edificação sob risco de perda do patrimônio e de vidas em condições extremas de pluviosidade por períodos prolongados”.
O cliente, frustrado, lamenta, mas acata a recomendação e não edifica nada na área. Passam-se dez anos e nada efetivamente ocorre naquela área devido ao conhecimento da situação. Mas, mesmo após chuvas torrenciais que duraram dias, o solo permaneceu imóvel. As pressões para receita na empreiteira levam sua administração a considerar novamente a área, apesar do laudo emitido dez anos atrás.
O processo de licenciamento da construção é protocolado na prefeitura, que solicita mais uma vez um laudo geotécnico. Um novo profissional, também legalmente habilitado, é contratado, dessa vez por um valor perto do dobro do anterior, e este chega à mesma conclusão daquele contratado dez anos atrás. Afinal, foi para esse propósito que ambos estudaram ciências exatas. As leituras realizadas levam às mesmas conclusões. Em se tratando de geologia, a pressa não altera os resultados.
Novamente, nada é construído no local onde já existe, inclusive, uma floresta em estágio médio de regeneração natural formada.
A essa altura dos acontecimentos, considerando o crescimento da cidade, a necessidade de novos investimentos, etc., as pessoas se perguntam se não seria desperdício deixar a área desocupada. E de fato, este é o raciocínio que leva engenheiros e economistas a considerar, em termos de desastres ambientais, o tempo de recorrência dos desastres. Digamos, se algum desastre devastador ocorre a cada 100 anos (e.g., uma enchente), o que podemos lucrar ou desenvolver dentro deste período antes que a vaca vá para o brejo? Esse normalmente é o raciocínio, que muitas vezes se justifica pela capacidade humana de desenvolver tecnologias que, ao longo do tempo, possam evitar ou contornar esses problemas.
Voltando ao assunto deste tópico: até o momento, dois laudos geotécnicos evitaram que uma edificação fosse construída em uma área de risco. O custo com assessoria ambiental para o cliente, obviamente, foi baixíssimo quando comparado ao custo da perda do patrimônio ou de vidas, caso o parecer conclusivo do profissional no primeiro laudo fosse favorável à edificação e houvesse um deslizamento de massas no local. Mas não houve acidente, não houve desastre. E se passaram 10 anos. Portanto, há também o custo da “terra parada”.
Em incontáveis casos, esse será o raciocínio por trás das decisões sobre novos empreendimentos. Em se tratando de negócios, sabe-se que nada é para sempre. O que conta é o tempo que temos entre um e outro evento disruptivo. Portanto, o custo e o valor para o cliente flutuarão de acordo com as condições em que esse se encontra e como ele pensa acerca destas condições. Logo, o primeiro passo para precificar adequadamente é ouvir a situação do cliente.
Nesse momento, os dois laudos custaram caro, e mais caro ainda é a impossibilidade de construir. Mas, na primavera seguinte, um fenômeno climático atinge a região de tal forma que a pluviosidade vai ao pico de sua história. Após dias chovendo em média 150mm, a área examinada finalmente satura ao ponto de colapso. Três vezes mais que os 5.000m² desabam morro abaixo. Ninguém se feriu. Nenhum patrimônio foi perdido, exceto o terreno (onde havia a “terra parada”).
Quanto valem agora os serviços de cada um dos laudos emitidos?
Em consultoria e assessoria ambiental ocorrerão situações das mais diversas, onde o profissional estará justamente nessa situação de salvar patrimônio, seja patrimônio financeiro, físico, humano, genético, ambiental, etc. Veremos agora um exemplo sobre o meio biótico.
No meio biótico #
Tomaremos como referência um dos biomas brasileiros considerado hotspot no estudo de Myers et al. De acordo com o autor, para qualificar uma região como um hotspot de biodiversidade, essa região deve atender a dois critérios rigorosos: deve conter pelo menos 1.500 espécies de plantas vasculares endêmicas e estar ameaçada, isto é, com evidência da perda de pelo menos 70% de sua vegetação primária. Tanto o Cerrado como a Mata Atlântica se qualificam. No caso da Mata Atlântica, estima-se que 92% desse bioma se perdeu para o desenvolvimento de sistemas humanos desde a colonização europeia.
Supondo que, em determinado local no interior do estado do Paraná (no domínio da Mata Atlântica), em uma propriedade rural típica da agricultura familiar de 25 hectares, há uma mancha de vegetação nativa florestal em estágio médio de regeneração natural, que a família deseja suprimir para ampliar sua lavoura de culturas anuais. Essa mata constitui cerca de 40% da propriedade e está conectada com matas de propriedades lindeiras. Vamos assumir que, pela legislação federal, estadual e municipal, a princípio, a família poderá, mediante licenciamento adequado, cortar até dois hectares de mato.
Para obter a licença de supressão da vegetação, o órgão ambiental competente do município, mediante convênio com o órgão ambiental estadual, exige a emissão de laudo de meio biótico (fauna e flora) da área a ser suprimida. A família contrata uma pessoa profissional, legalmente habilitada, que cobra 12 mil reais pelo laudo. Trata-se de um trabalho quantitativo para a flora arbórea e qualitativo para as demais espécies, tanto da flora quanto da fauna. A família considera o preço abusivo, isto é, o custo é muito alto e, por isso, contrata outro profissional para fazer o serviço pela metade do preço.
Diante da necessidade de cortar custos, o profissional contratado reduz o tempo de estudo, simplifica a amostragem, comprometendo seu valor probabilístico, e não investiga a fauna adequadamente (i.e., dispensa o uso de armadilhas fotográficas, tocaia noturna, inspeção de tocas e vestígios, etc.). O laudo é emitido e, diante dos dados, o parecer conclusivo é favorável à supressão da vegetação, sem ressalvas quanto a ocorrência de fauna ameaçada de extinção.
Na sequência, o quadro técnico do órgão público vistoria a área, mas não dispõe do tempo necessário para uma investigação profunda. Por isso foi solicitado o laudo. A licença então é emitida e a vegetação é suprimida sob as condições e restrições estabelecidas nessa licença. Apesar da análise do processo, do acompanhamento técnico e dos cuidados tomados até então, eis que durante os serviços de corte de vegetação, acidentalmente a tora de uma árvore cai sobre um Gato Maracajá, matando-o instantaneamente. Ninguém suspeitava da ocorrência deste animal na área. Um dos auxiliares de campo estava filmando tudo, afinal, a queda de uma tora é sempre algo impressionante de assistir. Porém, ao cair sobre um felino silvestre ameaçado de extinção, não tem preço. A pessoa posta o seu lamento no Instagram. “Soubesse que havia esse bichinho por aqui, nem faria o serviço” consta na legenda. O vídeo viraliza.
Quanto custou o laudo? Quanto vale o serviço?
Independente do desfecho da situação acima, para o gato valeu a vida. Para a espécie, a perda de um único indivíduo; o que pode ser ainda pior dependendo da população lá existente. Portanto, ao reduzir custos, subiram os riscos e, nesse caso, o desfecho foi desastroso.
No meio social #
Da mesma forma que a qualidade dos serviços influencia nos resultados e nas consequências do uso do estudo que foi feito sobre o meio físico e biótico, no meio social, pode ser a diferença entre ter uma população com civismo, engajada conjuntamente nos esforços para melhorar a cidade, e ter uma população desmotivada, dividida, desmoralizada ou impotente frente às dificuldades enfrentadas na comunidade. A atuação dos órgãos públicos, dos servidores lotados nos setores de meio ambiente, educação e cultura, e dos consultores contratados por estes é de crucial relevância para os resultados dos esforços educacionais, das campanhas publicitárias, e de todo e qualquer projeto socioambiental.
Um trabalho bem feito nessa área pode levar um município a transformar sua autoestima coletiva e conduzir o rumo do seu desenvolvimento econômico, ambiental e social para a prosperidade. O contrário também é verídico. O trabalho mal feito pode tirar a credibilidade das instituições, das pessoas que trabalham nestas, e das empresas de consultoria ambiental envolvidas. Mas pior do que isso, pode reforçar a descredibilidade da comunidade em si própria.
No meio ambiente #
Concluímos esse tópico esclarecendo que o preço atrelado aos serviços de consultoria e assessoria ambiental está diretamente relacionado a qualidade destes serviços. E a qualidade, por sua vez, está diretamente relacionada aos riscos de uma decisão ser tomada sem fundamentação técnica adequada. Um serviço mal feito e barato pode trazer consequências drásticas para o meio ambiente, para o cliente, para a sociedade e para os profissionais que prestaram o serviço, gerando consequências irreparáveis.
Se a percepção do risco para o cliente é alta, o valor do serviço também será elevado e, o preço, portanto, poderá ser adequado. Entretanto, muitos clientes não percebem esse risco e também não atribuem o devido valor, optando por preços mais baixos. Em função de diversos fatores, há profissionais dispostos a correr estes riscos e, por ser o legado de um mercado ainda jovem na economia, as consequências continuarão existindo.
Espera-se que com o compartilhamento de know-how que este manual propõem, possa-se qualificar os serviços e diminuir estes riscos, trazendo benefícios para todas as partes envolvidas.
