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Complexidade da precificação

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Abordaremos esse tema por partes porque esse assunto é um dos mais importantes que iremos tratar nesse manual, até porque há relação direta com a subsistência, crescimento e qualificação desta economia no mercado, que é o nosso objetivo maior com esse trabalho.

Por hora, imagine uma empresa do ramo de seguros cujo serviço prestado é a garantia de que se algum sinistro ocorrer com algum patrimônio de alguém, esta empresa cobrirá parcialmente ou na totalidade todos os custos envolvidos com os danos. Quais danos? Como serão averiguados? Quanto custa reparar ou substituir o estrago? Quais as chances de ocorrer um dano? São algumas perguntas, entre muitas outras, que precisam estar no algoritmo de precificação da seguradora. Isso torna muito difícil precificar o seguro. Existem muitas variáveis, mas a mais complexa é, provavelmente, a incerteza inerente nas probabilidades de quaisquer dos fatores de risco levarem à ocorrência de um sinistro. Por isso, as seguradoras trabalham com séries históricas, onde se encontram todo tipo de correlações entre variáveis socioeconômicas, geográficas, etc.

Não obstante, no ramo de seguros, a documentação também é de extrema importância para que a empresa possa se certificar do que está fazendo, a quem ou o quê está assegurando.

Na consultoria e assessoria ambiental também trabalhamos com muitas incertezas e muita documentação. Embora não seja tão complexo quanto as variáveis envolvidas no seguro, é certo que o preço precisa estar detalhadamente atrelado à proposta de trabalho, e é a proposta, não tanto o preço, que pode ser complicada de se qualificar e quantificar, devido às incertezas.

Embora seja difícil classificar os serviços com precisão, podemos fazer isso de forma metódica para auxiliar na precificação, tornando-a mais consistente com os serviços prestados, e por isso mais segura.

As imprevisibilidades sempre estarão presentes em qualquer trabalho, o importante é conseguir se adaptar a elas.
Fonte:© Freepik.

Preço e classificação dos serviços #

Uma parte significativa da complexidade em se precificar consultoria e assessoria ambiental está na tipologia do serviço, ou serviços que serão prestados. Por isso, contar com uma taxonomia própria, isto é, uma classificação dos serviços, pode ajudar bastante na hora de precificar. Uma rápida análise de websites de empresas de consultoria e assessoria ambiental no Brasil vai demonstrar claramente o que estamos realçando. Muitas apresentam opções de serviços prestados que se diferenciam umas das outras, ou que se denominam de forma diferenciada, mas que em essência são muitas vezes o mesmo serviço.

Para descomplicar a precificação, devemos olhar para o que estes serviços têm em comum e no que especificamente se diferenciam, visando encontrar padrões que os qualifiquem antes de podermos analisar a quantificação envolvida nos mesmos.


Tipificação baseada na natureza do serviço #

É uma tipificação baseada no que realmente se constitui o serviço, independente do que está sendo solicitado pelo órgão público. Essa categoria se diferencia da outra categoria que veremos mais adiante, que utiliza o Termo de Referência (TR) dos órgãos públicos ambientais, no sentido em que é definida pela própria empresa, pela perspectiva do consultor, pela sua forma de dividir sua carga de trabalho. Já a tipificação baseada nos (TR) segue estritamente o que está explícito no TR, inclusive o conteúdo mínimo exigido e as metodologias especificadas neste documento. A maioria das empresas de consultoria e assessoria ambiental se utilizam de uma combinação de ambos.


Elaboração de documentação técnica #

A primeira categoria de serviços que tratamos aqui é a elaboração de documentação técnica.

Há serviços que são exclusivamente documentais técnicos que podem ser feitos sem sair do escritório (i.e., ilustração técnica, mapeamento, redação de ofícios, cálculos, defesa de autuação ambiental, etc.), desde que substanciados por informação prévia adquirida por outrem em campo ou com o cliente. São serviços que, para efeitos desse manual, consideraremos de suporte. É o tipo de serviço que é feito por freelancers ou por pessoal contratado na empresa, dependendo da demanda.

Há serviços que são documentais técnicos, mas que necessitam de ao menos uma visita ou vistoria in loco (i.e., parecer técnico preliminar, laudo qualitativo de cobertura vegetal, laudo de dano ambiental, relatório de conformidade legal, relatório de auditoria ambiental, levantamento socioambiental, etc.). O olhar qualificado e experiente do profissional norteará a elaboração do documento. Esse tipo de serviço vai exigir deslocamento, visitação e, dependendo do local, esforço físico também.

E há documentos técnicos que precisam ainda de intervenções, mensurações ou estudos na área, inclusive com o emprego de equipamentos especializados (i.e., laudo geotécnico pós-sondagem, projeto arquitetônico, plano de lavra, laudo quantitativo de fauna, laudo físico-químico de solo, identificação de áreas de risco, etc.).

Portanto, uma grande parte dos serviços de consultoria e assessoria ambiental são desse tipo, isto é, demandam a elaboração de documentos técnicos por profissionais legalmente habilitados, acompanhados de anotação de responsabilidade técnica. O que é importante nessa tipificação para fins de precificação é que aqui consideramos que o serviço não envolve monitoramento, acompanhamento, inspeção contínua de resultados, nem a coordenação de equipes e processos construtivos, disruptivos ou de transformação. Faz-se o estudo, elabora-se o documento e dá-se por concluído o serviço. São tipicamente diagnósticos. Obviamente, o escopo temporal dos estudos será diretamente proporcional ao escopo geográfico e inversamente proporcional ao tamanho da equipe de profissionais envolvida, entre outros fatores que consideramos anteriormente (i.e., recursos tecnológicos).

Alerta

Quanto maior a área analisada, mais tempo será necessário para concluir o estudo. Quanto mais profissionais trabalharem no estudo, mais rápido ele poderá ser concluído. Embora seja óbviou, a pressa por precificar para um cliente ansioso, preocupado com a sua situação frente aos órgãos públicos pode muitas vezes levar o consultor a esquecer essa equação e precificar erroneamente.


Execução de obras #

A segunda categoria que tratamos são os serviços que envolvem obras de algum tipo.

Este tipo de serviço vai muito além da elaboração de documentos baseados em estudos e, dessa forma, exige execução e acompanhamento de obras (i.e., construção ou instalação de uma estação de tratamento de efluentes, acompanhamento da execução de um projeto de remediação de área degradada, manejo de avifauna em aeroportos, poda de árvores de grande porte, supressão vegetal em geral, conformação topográfica, etc.). Nessa categoria, baseando-se em documentos previamente elaborados, geralmente um plano ou projeto, dá-se a execução do mesmo. As responsabilidades tendem a ser maiores em virtude do envolvimento de mais pessoas e de processos que, caso sejam mal executados, podem custar caro ao cliente, ao meio ambiente e/ou ao fornecedor dos serviços. Portanto, aumentam significativamente os riscos, e isso precisa ser levado em consideração na hora de precificar.

Note que, sob o descritor obras, incluímos também o manejo de fauna e flora, dado que, em muitos casos, exige-se a coordenação de pessoal qualificado (i.e., arboristas, veterinários, biólogos), com o emprego de equipamentos especializados, e por dias, se não semanas, dependendo do número de campanhas, do escopo taxonômico do trabalho e, obviamente, do local.


Monitoramento #

A terceira categoria vai mais um passo adiante, envolvendo prazos maiores.

O monitoramento se diferencia das categorias anteriores por se tratar de serviço repetitivo, visto que envolve o acompanhamento e inspeção periódica de um determinado fenômeno, geralmente com prazo mais longo. A precificação destes serviços envolve o conhecimento de quantas vezes serão necessárias visitar um determinado local, quanto tempo será necessário estar no local em cada visita, e o que será necessário realizar durante e após cada visita.


Capacitação, treinamento e educação ambiental #

A quarta categoria de serviços que consideramos é educacional.

Serviços dessa natureza podem envolver diretamente a transferência de know-how, o provimento de experiências significativas, enriquecimento intelectual, habilidades específicas, conhecimento ou formas de conhecer, tudo que de certa forma empodera o educando para agir sobre o mundo de maneira mais criativa e mais substanciada. Essa transferência pode ser feita de muitas maneiras diferentes que, inclusive, podem envolver as três categorias anteriores com a participação do público alvo. Porém, na grande maioria das vezes, se resume na apresentação de cursos e oficinas em salas ou ambientes preparados para esta função, seja em ambiente virtual, visitações em campo, laboratórios, museus ou outras instituições especializadas no conteúdo, habilidade e experiência que se deseja trabalhar.

Colocamos a educação ambiental nessa categoria, mas é muito importante salientar que ela se diferencia fundamentalmente da capacitação técnica quando aplicada para transformação socioambiental. Estamos falando de educação ambiental abrangente, que analisa processos sociais e econômicos assim como a consequência destes no meio ambiente. A educação ambiental pode ser sobre o meio ambiente, sobre a biodiversidade, as relações ecológicas, etc. Também pode se dar no meio ambiente, pela experiência de estar no lugar que se busca conhecer e, pode ainda estar voltada para o meio ambiente, isto é, objetivamente estruturada e conduzida para trazer benefícios socioambientais. Mas, mais do que isso, ela pode (e em nosso entendimento, deve) ser transformadora e libertadora, onde o educando se qualifica para questionar e argumentar sobre ideologias que sustentam a degradação socioambiental, local, regional, nacional ou planetária. Ou seja, consideramos que munir o educando de pensamento crítico-científico é intrinsecamente benéfico para a sociedade e o meio ambiente.

Para fins de precificação, essa categoria se diferencia bastante das demais vistas acima, pois envolve conhecer todos os aspectos das metodologias didáticas que serão empregadas, o tempo de serviço, o tamanho e perfil da audiência, os recursos disponíveis, e diversos outros fatores que dependerão da criatividade do profissional educador.

Para auxiliar na precificação e no planejamento de atividades de capacitação técnica e de educação ambiental, incluímos uma planilha de viabilidade econômica de cursos e oficinas e outra com um extenso checklist de metodologias que organiza as atividades planejadas e pode ser usada por profissionais da educação. Além desses dois documentos, incluímos ainda um formulário de avaliação de cursos e oficinas, que ajudará o consultor a monitorar o seu desempenho nestes serviços.


Coordenação, gestão e gerenciamento #

A quinta categoria diz respeito aos serviços de maior abrangência, tanto de conhecimento e técnicas, como de pessoal.

Podemos entender essa categoria como um misto das anteriores focado em uma área específica, onde o profissional responsável pela gestão coordenará pessoas e o uso de equipamentos para manter sob controle um determinado processo. Por exemplo, o gerenciamento de resíduos de uma indústria, envolvendo emissões atmosféricas, o tratamento e lançamento de efluentes em recursos hídricos e a geração de resíduos sólidos. A gestão de resíduos vai envolver: (a) a elaboração de documentação técnica; (2) a execução de “obras” de segregação, acondicionamento, processamento, e despacho; (c) o monitoramento dos pontos geradores e das condições ambientais; e por fim (d) a capacitação e treinamento do pessoal envolvido nos processos. Envolverá ainda os registros junto aos órgãos de governo, assegurando rastreabilidade e conformidade legal.

Colocamos o gerenciamento de projetos socioambientais também nesta categoria. Podemos considerar a elaboração do projeto como documentação técnica; sua execução, dependendo do projeto, podemos considerar obra; já o gerenciamento do conjunto de todos os processos e pessoal envolvido, dependendo da magnitude do projeto, chamaremos de gestão.

Assim como o gerenciamento de projetos socioambientais, a coordenação de processos de licenciamento ambiental, para fins desse manual, entra nesta categoria, pois espera-se do profissional a organização de toda documentação técnica necessária, assim como a intermediação do trabalho junto ao órgão ambiental público.

consultoria e a assessoria para a gestão ambiental pode ocorrer de forma contratual temporária, isto é, o profissional legalmente habilitado e experiente no assunto elabora o sistema de gestão ambiental (SGA) e visita periodicamente a empresa para acompanhar o sistema proposto e orientar sua execução, até o ponto em que a empresa consiga calibrar e adotar o sistema. Já para o licenciamento ambiental pode-se firmar contrato anual que inclua o monitoramento das condições e restrições impostas nas licenças ambientais.

Para fins de precificação é preciso esclarecer detalhadamente o escopo nesse tipo de serviço, isto é, as atribuições do coordenador ou gestor devem estar previamente definidas, assim como o tempo, extensão e periodicidade do trabalho. Tudo isso vai implicar na alocação de recursos que serão devidamente precificados.

Alerta

Durante a execução do serviço, também podem surgir imprevistos que impactam o tempo e os custos envolvidos. Dessa forma, se assegure de definir cláusulas que permitam ajustar o preço caso o escopo sofra alterações significativas.


Produção #

A sexta e última categoria que apresentamos neste manual podem envolver logística, aquisição de materiais, coordenação de processos, etc.

Demandas que envolvem algum tipo de produção são raras, mas existem. Incluímos aqui a coleta de sementes de espécimes matrizes para fins de produção de mudas em viveiro, a produção de conteúdo técnico específico, geralmente educacional, e a produção de material didático, dioramas e planos de atividades específicas para educação ambiental. Quaisquer itens ou artigos que precisarão ser feitos em quantidade, ou que sejam repetitivos, isto é, que demandam algum tipo de produção, entram nessa categoria. Isso porque podemos precificar por item com base nos custos para a produção de uma unidade, por exemplo. É uma categoria comum na área de educação ambiental, baseada no número de educandos que serão atendidos.

Hoje, temos ainda a produção de conteúdo para a Web, seja para o marketing ambiental, como também para fins educacionais. É uma área onde a consultoria e mesmo a assessoria ambiental são fundamentais para qualificar a informação e evitar a desinformação.


Combinando categorias para se chegar a um preço #

Importante salientar que, na ocasião de precificar uma demanda de serviços de consultoria e assessoria ambiental, uma ou mais destas categorias poderão estar envolvidas e não significa que se você está precificando uma obra, não terá serviços de gestão, ou que, se está precificando a elaboração de um documento técnico, não terá serviços de monitoramento.

Classificamos os serviços desta forma apenas para fins de esclarecer a complexidade de formar um preço para o cliente. Outras formas de classificar serviços na área podem facilmente ser consideradas e esperamos que a contribuição dos leitores possa melhorar essa taxonomia.


Tipificação baseada nos órgãos públicos #

Conforme dito acima, os órgãos públicos, a fim de tomarem decisões de gestão que influenciam a intermediação entre o meio ambiente e o administrado (os munícipes e seu patrimônio), embasados em normativas legais e até mesmo no que é conhecido por poder discricionário, publicarão termos de referência que servem para orientar o conteúdo, rigor, metodologia, abrangência e profundidades dos estudos do meio ambiente. Tratam-se de instruções de como o processo de licenciamento ambiental, por exemplo, deverá ser instruído. Ou seja, é o órgão público que determina como deve ser o estudo e o documento a ser elaborado a partir deste. Ali, no TR, encontramos informações valiosas para nortear a precificação.


Termo de Referência (TR) #

Dependendo dos documentos que um órgão ambiental competente de governo (e.g. secretaria municipal de meio ambiente, secretaria estadual de meio ambiente, IBAMA, ICMBio, FEPAM, IMA, etc.) solicita, assim serão tipificados os serviços. De fato, dadas as exigências legais por serviços de cunho ambiental, uma forma segura e estruturada de precificar os serviços se dá mediante análise detalhada e aprofundada dos termos de referência (TR) publicados por estes órgãos para elaboração de documentos técnicos. São esses documentos técnicos que instruirão os processos de licenciamento ambiental, por exemplo.

Recomenda-se sempre a leitura criteriosa do TR para cada tipo de documento técnico mesmo que o cliente tenha sua própria ideia do que deseja contratar. É no TR que se identificará o escopo geográfico e temporal do serviço, assim como sua profundidade e detalhamento do mesmo que o órgão ambiental espera que seja apresentado. O cliente terá a tendência a simplificar as coisas para que o serviço custe menos. No entanto, essa atitude levará à necessidade de complementação documental, o que implicará em ônus ao profissional consultor, se este não alinhou os detalhes do serviço em seu contrato.

Por isso, o TR para a elaboração de um Laudo de Eficiência de uma estação de tratamento de efluentes, ou o TR para a elaboração de um Laudo Geotécnico, ou ainda o TR para a elaboração de um Laudo de Meio Biótico deve ser criteriosamente considerado na hora de precificar o serviço de elaboração de tal documento.

Esses termos de referência são especialmente necessários em compras públicas de estudos técnicos complexos e de grande porte, onde inclusive são realizadas licitações para obtenção de consultoria ambiental que será prestada na elaboração destes termos.

Conclui-se que a variação de exigências entre órgãos ambientais é outro fator de complexidade na precificação de serviços de consultoria e assessoria ambiental, dado que tanto os nomes dos documentos podem variar bastante como o seu conteúdo mínimo e o seu rigor científico.


Existem órgãos públicos ambientais que não desenvolveram ou não atualizaram seus termos de referência. Casos em que não há orientação detalhada, há que se consultar as normativas legais referentes ao documento que se deseja produzir além do corpo técnico do órgão ambiental público. Essas normas genericamente estabelecem o conteúdo mínimo necessário do documento. Por exemplo, a Política Nacional de Resíduos Sólidos estabelece o conteúdo mínimo para os planos estaduais, municipais e regionais de gestão de resíduos sólidos.

Atenção

Sempre acompanhe atualizações nas legislações para evitar problemas e garantir a conformidade legal. Uma das piores situações vividas por consultorias ambientais é prestar orientação ao cliente que está defasada, do ponto de vista legal. O ideal é ter a legislação à mão acompanhado de um perfeito entendimento da mesma para que o cliente possa entender os limites e também as possibilidades.

Na ausência de normativa legal e de Termo de Referência para a elaboração de um documento técnico exigido pelo órgão público ambiental, permanece ainda a obrigação do empreendedor (com ou sem assessoria ambiental) de instruir adequadamente o processo de licenciamento ambiental junto ao órgão ambiental. Por instruir, nos referimos a prover informações precisas, confiáveis e,portanto, úteis à tomada de decisão junto ao órgão ambiental. Logo, não se pode adivinhar o que o profissional quer ver em um documento técnico, e por isso a consulta ao órgão público é indispensável.

No entanto, profissionais qualificados e experientes no ramo já tem noção do mínimo necessário e conhecem a área um do outro. Logo, geralmente trata-se apenas de calibração das expectativas entre um e outro, isto é, entre o que o consultor ambiental irá prover e o que o técnico servidor público espera encontrar na documentação. Neste manual você encontrará exemplos de documentos, mas não se pode tomar estas referências como base única para a elaboração dos documentos que você irá apresentar ao órgão público. As normas e os termos de referência são o amparo legal necessário para a elaboração destes documentos.

Por isso, sobre esse aspecto da tipificação dos serviços, conclui-se que é fundamental conhecer o que é exigido para que se possa precificar com base na respectiva carga de trabalho envolvida.


Preço e quantificação do serviço #

Se antes o olhar se deu sobre o tipo de serviço, sua natureza, sua descrição qualitativa, agora veremos as quantidades envolvidas, lembrando que esta análise visa melhorar o hábito da precificação dos serviços de consultoria e assessoria ambiental, sem contudo restringir a criatividade do profissional.


Frequência #

Prestar consultoria e assessoria ambiental a uma empresa pode levar dias, semanas ou meses, e até anos. Se for na área de licenciamento ambiental, dependendo da licença, do porte do empreendimento, do potencial poluidor, da complexidade e localização do empreendimento, entre outros fatores, pode levar anos. Mas, uma vez emitida a licença de operação do empreendimento, esta será renovada na frequência que o órgão ambiental de governo definiu.

Portanto, esse tipo de serviço pode ser considerado periódico, isto é, o cliente possivelmente necessitará deste serviço na periodicidade de renovação da licença junto ao órgão ambiental. Trata-se, portanto, de um serviço cujo preço é fortemente influenciado pelo mercado, já que há oportunidade de receita contínua (vide item 8.1.9).

Por outro lado, elaborar um laudo geológico que possibilite avaliar as condições geotécnicas de um determinado terreno em área declivosa, onde quer-se edificar um prédio residencial, apenas para fins de conferir a viabilidade da edificação, é um serviço único, que ocorrerá muito provavelmente apenas uma vez, ou num prazo muito longo. Logicamente, não é incomum que outros laudos sejam feitos sobre a mesma área, inclusive laudos com mesmo conteúdo técnico elaborado por profissionais diferentes. Mas aqui estamos atentos à frequência com que nossa empresa proverá os serviços.

Tratamos da periodicidade quando mencionamos, principalmente, os serviços de monitoramento acima. É preciso se considerar com que frequência ocorrerá o serviço e com que frequência o cliente deseja contratá-los para precificar adequadamente.


Escopo temporal #

Diferente da frequência em si, aqui avaliamos a extensão do tempo que estaremos prestando os serviços.

Consideramos por quanto tempo estaremos envolvidos no andamento dos trabalhos, por quanto tempo se dará a responsabilidade técnica, quanto tempo demandará do profissional e/ou da empresa de consultoria e assessoria ambiental. Obviamente, trabalhos mais longos custarão mais do que trabalhos mais curtos, e é preciso saber como apresentar preços de trabalhos longos de forma que o cliente não se assuste. Tratamos mais desse assunto no capítulo 15, quando apresentamos estratégias para elaboração de propostas comerciais, e no capítulo 16, quanto tratamos de contratos de prestação de serviços.

O escopo temporal é um quantitativo fundamental em projetos socioambientais e projetos de educação ambiental, dada a natureza destes serviços.


Serviços de longo prazo #

Recomendamos que serviços de longo prazo, ou até mesmo de prazo aberto, não sejam precificados por empreitada, e sim por período de assessoria. Um preço fechado para um serviço que dure anos ou que não se tenha definição de quando se encerrará pode colocar a empresa ou o profissional numa situação difícil, com um passivo ou compromisso que poderá não cumprir num futuro incerto. Os eventos que influenciam a economia de uma nação são imprevisíveis e, dependendo do caso, podem levar à inflação acima do previsto, rendendo prejuízos ao consultor. Mas, além da inflação, muitos outros fatores podem influenciar o andamento de um projeto sob responsabilidade do consultor. Mudanças nos recursos humanos da empresa podem ocorrer e, dependendo do caso, são catastróficas de resolver, o que pode levar a empresa a se ver impossibilitada de cumprir com o contrato.

Para evitar essa situação, defini-se o valor mensal da assessoria para os serviços elencados na negociação com o cliente. Estes serviços serão prestados ao longos dos meses que o cliente manter a sua “assinatura” ativa. Por exemplo: A reposição florestal obrigatória prevista na legislação federal e estadual no RS exige que um empreendedor que suprimiu vegetação nativa plante árvores para repor o que foi cortado e cuide destas árvores por um mínimo de quatro anos. Uma situação como essa provavelmente exige a emissão de uma ART com vigência de quatro anos. No entanto, seria muito difícil precificar com segurança um compromisso de tão longo prazo. Assim, se estabelece um preço mensal de responsabilidade técnica pelo monitoramento do plantio, deixando ambas as partes desamarradas. O cliente pode trocar de profissional a qualquer momento que julgar necessário ou conveniente, bastando ao consultor contratado baixar a ART junto ao seu conselho de classe profissional e notificar o órgão ambiental público.


Escopo geográfico #

O escopo geográfico diz respeito à localização do serviço relativo à sede da empresa ou ao local de residência dos profissionais que farão os serviços. A distância está diretamente relacionada aos custos e tempo com deslocamento. É preciso ainda ver quantas vezes serão necessárias visitar o local, ou locais. Tudo isso são fatores que devem ser levados em conta na precificação.

Não obstante, o escopo geográfico também define o esforço, pois uma área de 500m² e uma área de 5 hectares possivelmente implicarão tempos e equipamentos diferentes de trabalho.


Magnitude do esforço #

O esforço é mais do que o tempo e o espaço que o serviço envolverá. É um conjunto de fatores que envolve também a experiência do profissional e os recursos disponíveis, incluindo os equipamentos, o número de campanhas, de amostras, etc. que poderão ser necessárias para a coleta suficiente de dados. A magnitude do esforço está diretamente relacionada às condições ambientais do local. Subir montanhas, caminhar por mato fechado, atravessar cursos d’água, subir árvores, atravessar obstáculos carregando equipamentos de captura de fauna, mensuração e inspeção de vegetação ou de topografia, exigem esforço e destreza física.

A quantificação do serviços do ponto de vista do esforço necessário não é uma quantia exata, mas precisa ser considerada para que os profissionais ou a empresa permaneçam motivados durante a execução dos serviços. A motivação diminuirá os riscos e implicará na qualificação dos serviços prestados.


Profundidade e rigor técnico #

Os estudos e serviços prestados podem ser de caráter prévio ou preliminar, isto é, uma olhada ou avaliada inicial sobre uma determinada área que resultará num parecer técnico inicial, porém útil na tomada de decisões. Podem ser ainda serviços ou estudos de caráter conclusivo, que trazem conhecimento suficiente para a tomada de decisão bem fundamentada pelo gestor público, por exemplo. Podem ser de caráter acadêmico, onde todas as medidas necessárias para replicação e publicação acadêmica foram consideradas. E podem ser ainda de nível pericial, onde a vida de uma pessoa (física ou jurídica) poderá ser significativamente alterada para sempre, e por isso, tanto a metodologia como a argumentação precisarão ser impecavelmente precisas e imparciais para substanciar uma decisão judicial. Portanto, existe um espectro de rigor científico nos serviços de consultoria e assessoria ambiental.

Naturalmente que serviços com maior rigor científico serão mais caros. Quantificar isso dependerá da conversa com o cliente, que irá expor o contexto em que se enquadra o serviço a ser prestado.


Magnitude da responsabilidade #

Diferente da anterior, aqui quantificamos não apenas o esforço técnico, mas o valor dos serviços para o cliente, para o meio ambiente e para a sociedade como um todo. No item 14.2 apresentamos uma breve discussão sobre quanto custa versus quanto valem os serviços de consultoria e assessoria ambiental. Portanto, não se trata de uma quantificação do serviço em si, mas da percepção de seu valor.

Para entender melhor essa quantificação, propomos a seguinte reflexão: ao se responsabilizar pelo projeto arquitetônico e estrutural de uma residência, você precisa saber que as pessoas que lá residirão, não querem que a casa caia sobre elas. A vida e o patrimônio têm valor. Logo, sua responsabilidade é para com ambos. Agora, se você se responsabilizar pelo projeto arquitetônico e estrutural de um edifício residencial de 18 pavimentos com quatro apartamentos em cada um, a responsabilidade aumentou 72 vezes, no mínimo. Logo, ao precificar serviços de consultoria e assessoria ambiental, você levará em consideração a magnitude da responsabilidade para com o patrimônio, a vida das pessoas e o meio ambiente que você está assumindo ao realizar os serviços. Logicamente, não se trata de uma matemática precisa, novamente, mas de estimativas que precisam ser consideradas quando há compromisso.

Na engenharia civil e na arquitetura já existem indicadores ou parâmetros que ajudam o profissional a precificar (i.e. o preço do Custo Unitário Básico, ou CUB). Mas, para a consultoria e assessoria ambiental, devido às variáveis já apresentadas, não existe um padrão a ser seguido. Estimar a magnitude da responsabilidade também é uma quantificação arbitrária que depende da experiência e conhecimento do profissional. Por isso, um laudo biótico mal elaborado, com mínima atenção à biodiversidade presente em campo, coloca em risco o patrimônio genético. Um EIA-RIMA mal elaborado poderá trazer graves consequências ambientais e sociais.


Cada decisão, laudo ou estudo pode afetar vidas, patrimônios naturais e o futuro das gerações. É essencial precificar considerando o peso dessa responsabilidade.
Fonte:© Linkedin.

Posição do preço no mercado #

Vimos anteriormente que classificar e quantificar aspectos relacionados ao serviço são análises essenciais para precificar adequadamente para o cliente, sem comprometer a empresa. Mas, de nada adiantará considerarmos todas as variáveis se chegarmos a um preço que está “fora” do mercado, isto é, que não alcança a prática atualmente estabelecida na região em que se faz a oferta. Logo, é preciso conhecer os preços que o mercado de consultoria e assessoria ambiental está praticando para saber onde o preço calculado se situa, isto é, acima ou abaixo da média.

Nos deparamos aqui com um paradoxo: a complexidade envolvida na precificação de serviços de consultoria e assessoria ambiental nos leva a supor que muitos dos preços praticados no mercado podem estar equivocados. Ainda assim, é essencial conhecer e considerar esses valores para nos posicionarmos de maneira estratégica e competitiva, aumentando nossas chances de sermos contratados.

Infelizmente, nossa experiência indica que os preços praticados atualmente ficam bem aquém do que seria o necessário para valorização monetária adequada dos serviços ambientais. Dito de outra forma, não estão levando a sério o meio ambiente. Isso você já sabia, mas talvez não seja tão óbvio o quanto os preços de consultoria e assessoria ambiental são afetados por essa percepção pífia de valor ao meio ambiente.

De início, os serviços são vistos como despesa, não como investimento. Em segundo lugar, são serviços que são exigidos “goela abaixo”, via regulamentações, via legislação. A grande maioria dos clientes que puder economizar com serviços de consultoria e assessoria ambiental, o fará. Não porque odeia o meio ambiente, mas porque raramente percebe a relação direta que há entre preço, a qualidade do serviço e sua relação com a conservação e restauração da biodiversidade, isto é, com a qualidade ambiental. As empresas e profissionais de consultoria ambiental são rotineiramente pressionados a baixar preços que já são baixos (haja vista o que elencamos acima e o que ainda vamos esclarecer abaixo), e nada do que você teorizar sobre isso fará diferença no momento da conversão, da venda. Por isso, infelizmente, o mercado (que não inclui as partes que não dispõem de voz para se manifestar – a biodiversidade-) acaba definindo o preço.

Mudar essa lógica levará tempo e precisamos identificar estratégias que possam fortalecer a economia da conservação e restauração da biodiversidade, independentemente da percepção de valor que o mercado tem sobre o valor dos serviços ambientais que a biodiversidade provê. Como? Esperamos que o intercâmbio de ideias e know-how promovido por esta obra possa ajudar a descobrir. Hoje, e desde que se inventou a coisa toda, quem paga a conta acaba ditando as regras, e se quem paga a conta não entende ou não se interessa por questões ecológicas, dá-se o drama da perda de ecossistemas mundo afora.


Outros fatores a considerar #

Logicamente para fins desse manual, elencamos apenas alguns aspectos dos serviços de consultoria e assessoria ambiental que influenciam na precificação, mas formular uma proposta comercial envolve diversos outros fatores que veremos mais adiante, incluindo a definição do lucro, dos riscos, dos impostos, das despesas operacionais fixas, variáveis, etc.

Esperamos que os esforços dedicados no capítulo 14 desse manual possam influenciar o mercado em direção à um eixo de referência, isto é, um conhecimento comum a todos que, em tempo, possa consolidar a economia da conservação e restauração da biodiversidade de forma a principalmente qualificar os serviços, justificando à clientela a relevância desse trabalho para o desenvolvimento sustentável. Queremos que a proposta traga efeitos positivos ambientais, sociais e econômicos para a sociedade.

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