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A CAA na economia

Tempo estimado de leitura: 27 minutos

Você já parou para pensar como o mundo vai mudando ao nosso redor, mesmo que lentamente? Se compararmos a Idade Média com os dias atuais, praticamente tudo relacionado aos seres humanos, com exceção de poucas estruturas edificadas, mudou radicalmente. Hoje a expectativa de vida média é duas a quatro décadas superior, dependendo do local. Os produtos, os serviços, os costumes, a cultura em geral, tudo se transformou em outra realidade, particularmente na economia. A população de humanos explodiu no planeta e com todas essas transformações nos deparamos com a nossa capacidade, como espécie, de destruir um planeta inteiro.


A consolidação da CAA #

O mercado da consultoria e da assessoria ambiental foi se desenvolvendo na medida em que o movimento ambientalista foi se materializando, principalmente nos anos 70. Isso implicou no crescimento da conscientização social sobre a importância da preservação ambiental. Posteriormente, se desenvolveu o ordenamento jurídico das normas ambientais que deu embasamento para consolidar a profissão e operacionalizar a atenção necessária e abrangente ao meio ambiente.

O movimento ambientalista trouxe à tona a necessidade de integração das questões ambientais no cotidiano das empresas e na gestão pública.
Fonte:© Freepik.

Com a pressão provocada pelos movimentos ambientalistas, novos instrumentos e políticas públicas surgiram, como o licenciamento ambiental, a lei que define as tipologias de unidades de conservação, a lei de crimes ambientais e, com estas, também os seus respectivos regulamentos e normativas que definiram (e ainda vem definindo) a sintonia fina das relações socioambientais e econômicas com o meio ambiente. Esse refinamento legal e a necessidade de atendê-lo resultou na formação do consultor ambiental especializado, enquanto profissional, isto é, o especialista que conhece o arcabouço legal e os meios para atendê-lo.

Hoje, profissionais da consultoria e assessoria ambiental são responsáveis por orientar empresas e pessoas físicas a conformarem suas atividades ao que está expresso na legislação, onde muitos inclusive registram tal responsabilidade junto ao seus respectivos órgãos de classe profissional. Logicamente tudo isso não ocorreu sem resistência, sem a inércia que nos força a permanecermos acomodados. Por isso, além da área estritamente técnica, na consultoria e assessoria ambiental trabalham profissionais das ciências humanas e das artes, que atuam na educação e na persuasão (i.e, marketing, comunicação social, músicas, teatro).

Em um primeiro momento, na consolidação do mercado da consultoria e assessoria ambiental, tudo permaneceu muito voltado estritamente à conformidade legal, ou seja, as empresas contratavam profissionais somente para cumprir com o mínimo exigido em lei. O foco era poder operar sem o risco de serem autuadas e penalizadas, por diversas sanções administrativas, civis e inclusive criminais. Com o tempo e, principalmente, com a globalização dos mercados, a consultoria e assessoria ambiental cresceu não só por exigência de órgãos regulatórios, mas também para atender demandas de tratados econômicos internacionais, para atender outras empresas na cadeia produtiva e principalmente para atender clientes de clientes. Hoje, ao ascender na escalada corporativa, é comum que uma empresa exija de seus parceiros a conformidade legal em diversos âmbitos e, entre eles, o meio ambiente. Como em todas as esferas, são as pessoas que estão trabalhando, os componentes que nos fazem humanos estão sempre muito presentes. Daí a inserção de iniciativas culturais, transformadoras do aspecto social na relação com o meio ambiente.

O desenvolvimento das certificações ambientais surgiu também nesse entremeio. Através das certificações, a empresa comprova que possui políticas ambientais, estruturas organizacionais, instalações e processos de controle de seu impacto ambiental. Isso a coloca em outros mercados de forma diferenciada e possibilita parcerias com empresas comprometidas com o desenvolvimento sustentável. Ou seja, hoje, ater-se à legislação ambiental é o mínimo necessário para uma empresa se colocar no mercado. Para que possa usufruir de iniciativas de marketing genuinamente ecológicas, ela precisará ir além desta conformidade, aumentando assim sua competitividade. Daí a relevância da consultoria e assessoria ambiental mais ampla, que vai além da conformidade legal.Com a pressão provocada pelos movimentos ambientalistas, novos instrumentos e políticas públicas surgiram, como o licenciamento ambiental, a lei que define as tipologias de unidades de conservação, a lei de crimes ambientais e, com estas, também os seus respectivos regulamentos e normativas que definiram (e ainda vem definindo) a sintonia fina das relações socioambientais e econômicas com o meio ambiente. Esse refinamento legal e a necessidade de atendê-lo resultou na formação do consultor ambiental especializado, enquanto profissional, isto é, o especialista que conhece o arcabouço legal e os meios para atendê-lo.

Hoje, profissionais da consultoria e assessoria ambiental são responsáveis por orientar empresas e pessoas físicas a conformarem suas atividades ao que está expresso na legislação, onde muitos inclusive registram tal responsabilidade junto ao seus respectivos órgãos de classe profissional. Logicamente tudo isso não ocorreu sem resistência, sem a inércia que nos força a permanecermos acomodados. Por isso, além da área estritamente técnica, na consultoria e assessoria ambiental trabalham profissionais das ciências humanas e das artes, que atuam na educação e na persuasão (i.e, marketing, comunicação social, músicas, teatro).

Em um primeiro momento, na consolidação do mercado da consultoria e assessoria ambiental, tudo permaneceu muito voltado estritamente à conformidade legal, ou seja, as empresas contratavam profissionais somente para cumprir com o mínimo exigido em lei. O foco era poder operar sem o risco de serem autuadas e penalizadas, por diversas sanções administrativas, civis e inclusive criminais. Com o tempo e, principalmente, com a globalização dos mercados, a consultoria e assessoria ambiental cresceu não só por exigência de órgãos regulatórios, mas também para atender demandas de tratados econômicos internacionais, para atender outras empresas na cadeia produtiva e principalmente para atender clientes de clientes. Hoje, ao ascender na escalada corporativa, é comum que uma empresa exija de seus parceiros a conformidade legal em diversos âmbitos e, entre eles, o meio ambiente. Como em todas as esferas, são as pessoas que estão trabalhando, os componentes que nos fazem humanos estão sempre muito presentes. Daí a inserção de iniciativas culturais, transformadoras do aspecto social na relação com o meio ambiente.

O desenvolvimento das certificações ambientais surgiu também nesse entremeio. Através das certificações, a empresa comprova que possui políticas ambientais, estruturas organizacionais, instalações e processos de controle de seu impacto ambiental. Isso a coloca em outros mercados de forma diferenciada e possibilita parcerias com empresas comprometidas com o desenvolvimento sustentável. Ou seja, hoje, ater-se à legislação ambiental é o mínimo necessário para uma empresa se colocar no mercado. Para que possa usufruir de iniciativas de marketing genuinamente ecológicas, ela precisará ir além desta conformidade, aumentando assim sua competitividade. Daí a relevância da consultoria e assessoria ambiental mais ampla, que vai além da conformidade legal.


Mercado de bens e serviços ambientais #

O mercado de bens e serviços ambientais (BSAs) é onde se está inserida a consultoria ambiental. Considera-se como bens e serviços ambientais aqueles que têm como função medir, prevenir, limitar e minimizar, ou corrigir danos ambientais aos recursos naturais, isto é, propor soluções aos problemas relacionados à degradação ambiental. Dentro desse mercado, existem diferentes segmentos e os dados estatísticos de instituições como a Environment Analyst apontam que as consultorias ambientais representam um segmento que movimenta de 3 a 6% do mercado de bens e serviços ambientais. Essa porcentagem, conforme Fernandes (2019), representa no mínimo 1,5 bilhão de reais no Brasil.

O mercado da consultoria ambiental está em constante crescimento e já não se limita mais ao setor industrial.
Fonte:© Freepik.

Problemas atuais das consultorias ambientais #

Apesar desse crescimento, no Brasil, a situação do mercado para as consultorias ambientais é hoje bastante estressante, pois ainda está em fase de nichificação, isto é, de especialização. Há um número elevado de empresas de pequeno porte prestando uma ampla variedade de serviços, ocasionando alta competição ao mesmo tempo em que um número elevado de clientes considera os serviços prestados como despesa, isto é, não como investimento. Atender às necessidades de cunho ecológico é visto como um mal necessário. Nesse cenário, a solução encontrada pela maior parte das empresas é a redução de custos e de preço dos serviços prestados para se tornar competitiva. Isso implica necessariamente na diminuição da qualidade geral dos serviços, favorecendo estratégias que permitam concluir o máximo possível de trabalhos no menor tempo possível e pelo menor preço.

Apesar da busca por eficiência ser louvável, essa situação também pode resultar facilmente na precarização de estudos, má remuneração dos profissionais e uso de tecnologias obsoletas. É o famoso amerdalhamento (do inglês, enshitification) que está se espalhando por tudo como um sintoma do capitalismo mais recente. Tudo isso não é favorável para as próprias empresas ou para o gerenciamento dos problemas ambientais do cliente. Desnecessário dizer que também acaba sendo prejudicial à biodiversidade.

Na medida em que as empresas se especializam, isto é, se aprofundam nas técnicas, qualificando os serviços e munindo os seus trabalhos de valor para a tomada de decisões, tanto pelos empreendedores como pelos órgãos públicos, mais relevância para o mercado e, principalmente, para o desenvolvimento sustentável a consultoria e assessoria ambiental terá. Por isso, ocupar nichos específicos pode ser um futuro necessário e promissor para valorização do setor. Além disso, de nada adianta a empresa investir em técnica e redução de impacto se o consumidor não desenvolve o interesse e a percepção de valor nos produtos e serviços que consome. Por isso, há que se incluir a educação ambiental como processo concomitante à transformação necessária.


Como seria a economia hoje sem a CAA #

Nos anos 60 até o início dos anos 70, em geral, a cadeia produtiva pouco ou nada se importava com o final de sua linha de produção. O raciocínio na época, por mais absurdo que possa parecer hoje, era de que tudo aquilo que não tinha uso na fábrica era simplesmente jogado fora. Na verdade, para muitos do setor industrial, ainda está assim. O que realmente mudou, foi que fora é agora um lugar conhecido e gerenciável. Lá atrás, jogavam-se os resíduos em qualquer lugar, geralmente em locais escondidos ou onde se pudesse ter a sensação de desaparecimento do lixo. Hoje, pode parecer absurdo, mas muitos destes locais foram áreas de acentuado declive cobertas por vegetação florestal ou buracos que precisavam ser tapados ou nivelados. Por um lado, isso ajudava no descarregamento do material, e por outro, deixava tudo bem escondido.

Pergunta

Se o planeta é, de fato, a nossa casa, para onde realmente vai tudo o que chamamos de “lixo” e que jogamos fora? Essa pergunta é relativamente ingênua, e ao mesmo nos deixa com uma sensação de impotência, especialmente diante de grandes aterros sanitários que existem aos milhares pelo mundo. Evidentemente, estes são os efeitos de nossa espécie sobre a geologia sedimentar nesse planeta.

Também neste período, no Brasil, se incentivava o desmatamento para expansão agropecuária na Amazônia. O extinto Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (IBDF), fundado em 1967, foi criado para gestão (não necessariamente para conservação) florestal. Apesar disso, cortar mato estava relativamente descontrolado. Órgãos públicos com viés conservacionista começaram a surgir com mais frequência na década de 80, com a publicação da Política Nacional do Meio Ambiente, a Lei Federal 6.938, de 31 de agosto de 1981, apesar das exceções pioneiras (i.e., CETESB, CEPRAM, FUNDAM).

Sem a cultura do controle e redução da poluição, que hoje é amparada legalmente pela legislação ambiental, exigida pelos órgãos públicos ambientais, cognitivamente instrumentalizada pelos esforços de educação e comunicação ambiental, e por fim operacionalizada por profissionais técnicos, isto é, sem a cultura da consultoria e assessoria ambiental, os lixões ainda estariam aumentando em volume e se multiplicando país afora. Nos cursos d’água veríamos os famosos icebergs de espuma descendo a correnteza dos rios, onde desaguavam efluentes industriais, sem contar a frequente mortandade de peixes. Se hoje podemos contabilizar sucessos, é graças ao conjunto da obra, aos esforços da coletividade que arregaçou as mangas e se debruçou sobre os problemas ambientais, sem receio de se envolver nos dilemas socioambientais que vêm emergindo destes.

Sem tudo que foi estabelecido, principalmente a partir dos anos 80, hoje ainda só plantariam árvores aquelas pessoas que possuíssem sítio para fazer um pomar, os interessados na extração de madeira ou administradores públicos interessados em arborização urbana. Não falaríamos em restauração de mata ciliar, nem de reposição florestal e muito menos do mercado de produção de mudas arbóreas nativas para essas finalidades. Não haveria crescimento e diversificação das iniciativas culturais e sociais em prol do meio ambiente.


CAA na conservação e restauração da biodiversidade #

A consultoria e assessoria ambiental é a linha que conecta, direta ou indiretamente, pessoas físicas e jurídicas à conservação e restauração da biodiversidade, seja por desejo próprio ou em virtude das exigências legais mencionadas. O impacto destes serviços na biodiversidade começa com a conservação de ambientes e a prevenção de impactos ambientais prejudiciais. No curto prazo, o principal objetivo de qualquer profissional que presta consultoria ambiental deve ser minimizar ao máximo possível os impactos ambientais negativos necessários para a realização das atividades planejadas. No longo prazo, o objetivo passa a ser que os processos de redução dos impactos ambientais negativos se sustentem pela própria cidadania ambiental, pela própria coerência do pensamento humano, isto é, pela cultura empresarial. Por isso afirmamos que conservação e restauração de biodiversidade não é campo exclusivo de profissionais da biologia.

Alerta

A consultoria ambiental é a linha que conecta, direta ou indiretamente, pessoas físicas e jurídicas à conservação e restauração da biodiversidade, seja por interesse próprio ou em virtude das exigências da legislação ambiental.

Nas diferentes frentes de atuação, seja na indústria, na mineração, na urbanização ou em qualquer outro setor da economia, a consultoria ambiental atuará com olhar analítico sobre os impactos ambientais destas atividades, visando controle sobre a geração de resíduos, sobre o lançamento de efluente e sobre as emissões atmosféricas, sem esquecer de que o compromisso, algum dia, terá que se sustentar independentemente da consultoria e assessoria ambiental. Em algum momento terá que se tornar óbvio na história do desenvolvimento das atividades econômicas humanas, que destruir a base da economia (a biodiversidade), não é um modo inteligente de se estar na biosfera.


Conservação #

É uma realidade que certos impactos são inevitáveis. Não é possível, por exemplo, instalar uma nova indústria em uma área vegetada sem que haja prévia supressão, ou realizar a lavra de rochas sem alteração topográfica. No entanto, em muitas situações, esses impactos podem ser mitigados e/ou compensados, se não totalmente evitados no local errado. Para isso, se aplicam as tecnologias e o conhecimento que profissionais da consultoria ambiental podem fornecer, na mesma medida em que empreendedores estiverem dispostos a investir.

Nesse quesito, estudos prévios, como Estudos de Impacto de Vizinhança (EIV), Laudos de Cobertura Vegetal (LCV), Estudos Sociodemográficos, Laudos de Fauna, Laudos Geológicos, entre outros, são a base para entender a dinâmica do ambiente que será alterado e obter a informação necessária para conservar ambientes e prevenir impactos ambientais. Ao conhecer, por exemplo, as Áreas de Preservação Permanente de uma gleba ou a distribuição de espécies de interesse conservacionista mediante prévio levantamento florístico, pode-se discutir com o empreendedor as melhores alternativas de intervenção para dirimir impactos em áreas protegidas e espécies de alto interesse ecológico. Em ambientes de urbanização irregular, o perfil sociodemográfico da população definirá estratégias educacionais e iniciativas que inclusive possam minimizar riscos de desastres ambientais, pela realocação de famílias, por exemplo.

Em um contexto industrial, a assessoria ambiental deve priorizar a redução da geração de resíduos sólidos ao invés de se concentrar apenas em como destiná-los. Esse objetivo pode ser alcançado por meio do conhecimento técnico e estratégico oferecido por consultores e assessores ambientais.

Quando não é possível evitar impactos ambientais, entra-se na etapa de mitigação. O consultor ambiental analisa as melhores formas de reduzir os impactos durante as atividades planejadas. Um exemplo disso, é a supressão vegetal. Após obter autorização para o manejo da vegetação nativa, o empreendedor pode querer realizar a supressão rapidamente. No entanto, quem garante que ele seguirá estritamente o que foi autorizado pelo órgão ambiental público, ou mesmo se entende as exigências explícitas na licença?

Erros podem ocorrer e muitas vezes nem são motivados por má-fé, mas simplesmente em consequência de um trabalho apressado ou mal-orientado. Sem prévia marcação das árvores ou direcionamento do corte, pode-se facilmente cortar o que não estava licenciado ou fazer com que a queda de uma árvore inadvertidamente afete a vegetação adjacente. Caso isso ocorra e haja fiscalização, não há dúvidas que o cliente sofrerá penalidades, pois ultrapassou os limites daquilo que foi licenciado.

Saber quais árvores podem ou não podem ser cortadas é um dos principais problemas durante a supressão. Por isso, a marcação das árvores por alguém que tenha esse conhecimento é fundamental.
Fonte:© Quadrat Ambiental.

Portanto, esse é um exemplo em que os profissionais da consultoria e assessoria ambiental, sobretudo aqueles ligados à área do meio biótico (ver Meio biótico), são contratados para mitigar impactos na medida do possível, controlando o dano previsto e assegurando a responsabilidade do empreendedor frente aos órgãos públicos ambientais.

A importância deste trabalho para a biodiversidade é ainda maior quando falamos em fauna. Os impactos na flora podem ser mensurados quantitativamente e qualitativamente com precisão; sua compensação é perfeitamente factível e ordenada por critérios estabelecidos em legislação. No entanto, a situação é diferente para a fauna, pois é mais difícil medir seus impactos, ainda que sejam inevitáveis, geralmente resultantes da perda e fragmentação de habitas. Mais difícil ainda será compensar a fauna diretamente. Não é possível procriar facilmente novos animais silvestres da mesma forma com que se plantam novas árvores. Mas, sabendo que esses impactos existem, profissionais da consultoria e assessoria ambiental irão propor medidas de mitigação dos impactos por grupos faunísticos afetados.

Como? Através do manejo, seja este direto ou indireto. Caso se intente a remoção de vegetação que possa servir como habitat para fauna, é prudente e necessário que sejam previstas ações para que estes animais não estejam na área durante o processo de remoção da vegetação. Caso contrário, há risco de morte e/ou ferimentos. Em muitos casos, profissionais especialistas em fauna farão inspeção de tocas, ninhos, e quaisquer locais onde possam ser encontrados animais com o intuito de afugentá-los para áreas adjacentes que não serão afetadas, ou mesmo prevendo captura e soltura em novos habitats adequados para sobrevivência.


Restauração #

Quando os esforços para prevenção e mitigação de impactos ambientais já foram esgotados, não se fala em conservação da biodiversidade, mas sim em restauração da biodiversidade. São conceitos distintos: na conservação, a responsabilidade é de manter o que ainda existe, enquanto na restauração, o objetivo é restaurar o que foi degradado. É sensato informar que a segunda opção é muito mais onerosa e complexa que a primeira e isso valida ainda mais a necessidade de sempre priorizar as ações que não impactam o meio ambiente ou que impactam o mínimo possível.

Dentro do papel da consultoria e assessoria ambiental, no que tange o manejo da biodiversidade, aplicam-se os inúmeros processos de restauração, recuperação e/ou remediação. Note que são três termos distintos, em que:

  • Restauração:

    Restituição de um ecossistema ou de uma população silvestre degradada o mais próximo possível da sua condição original. Na restauração a prioridade é restabelecer o ecossistema, a biodiversidade.

  • Recuperação:

    Restituição de um ecossistema ou de uma população silvestre degradada a uma condição não degradada, que pode ser diferente de sua condição original. Na recuperação a prioridade é tornar a área apropriada para uso novamente ou mesmo para a restauração.

  • Remediação:

    É um conjunto de técnicas que visa a remoção de componentes químicos inadequados presentes em ambiente natural. Na remediação, a prioridade é a “limpeza” do local, a descontaminação.

A exemplo do papel da consultoria e assessoria ambiental na restauração da biodiversidade, pode-se citar os projetos de compensação ambiental. A legislação ambiental federal criou mecanismos para compensar os impactos à biodiversidade, destacando-se a Reposição Florestal Obrigatória (RFO). No Estado do Rio Grande do Sul, esta política está regulamentada pela Instrução Normativa SEMA/FEPAM n° 01/2018. Geralmente a compensação ambiental é realizada por meio de plantio de mudas. Entretanto, diferentes estados e municípios podem prever diferentes formatos. Outros exemplos comuns são a servidão ambiental em área equivalente a suprimida, conversão em projetos ambientais, conversão em pecúnia (valor financeiro) destinado à projetos de conservação, doação de mudas ao município para gestão da arborização urbana, entre outras.

Profissionais da consultoria e assessoria ambiental, fazendo uso do conhecimento que possuem, trazem impacto benéfico ao meio ambiente ao orientar quem necessita realizar a compensação ambiental. Podem fazer cumprir a preferência por compensação em área equivalente prevista na Lei da Mata Atlântica (Lei Federal n° 11.428/2006), que objetiva conservar os diminuídos fragmentos florestais existentes deste bioma ou, ainda, pode determinar qual o melhor local para alocar os recursos financeiros de empreendimentos de significativo impacto ambiental, os quais são obrigados a apoiar a implantação e manutenção de Unidades de Conservação, conforme o Sistema Nacional das Unidades de Conservação (SNUC).

Ainda, outro trabalho comum para profissionais da consultoria e assessoria ambiental são os Planos de Recuperação de Área Degradada (PRAD), que serão vistos mais adiante.

Assim se compensa a natureza pelo o que tiramos dela, reconstruindo a harmonia entre o ser humano e o meio ambiente.
Fonte:© Freepik.

O meio físico na conservação e restauração da biodiversidade #

Os trabalhos da consultoria e assessoria ambiental relacionados ao meio físico também são essenciais para a biodiversidade. A ligação entre geodiversidade e biodiversidade é intrínseca: são os processos geológicos e geomorfológicos que dão origem às diferentes paisagens que sustentam a diversidade de vida. Além disso, o solo influencia diretamente no desenvolvimento de comunidades vegetais e, consequentemente, de comunidades faunísticas, já que estas dependem umas das outras.

Acaso queiramos nos aprofundar mais, podemos retornar às aulas de evolução para lembrar que um dos tipos de especiação, a vicariante, é dependente da existência de processos geológicos e geomorfológicos que separam populações. A formação de barreiras físicas, como cadeias de montanhas ou rios, pode isolar populações de uma mesma espécie, levando à diversificação genética e, eventualmente, à formação de novas espécies. Isso demonstra como a dinâmica do meio físico influencia diretamente a biodiversidade ao longo do tempo.

No contexto da conservação e restauração da biodiversidade, a análise do meio físico é muitas vezes indispensável e é um componente solicitado em estudos elaborados pelos profissionais da consultoria e assessoria ambiental. Entender a composição e estrutura do solo são fundamentais em projetos de recuperação de áreas degradadas. Estudos pedológicos ajudam a identificar quais espécies vegetais podem ser plantadas para acelerar o processo de regeneração do ecossistema. Já em locais onde houve compactação do solo devido a atividades humanas, a recuperação pode incluir técnicas de descompactação mecânica e o uso de espécies vegetais com raízes profundas para melhorar a estrutura do solo.

Outro exemplo prático é o mapeamento geológico e geomorfológico em áreas de risco de erosão. A estabilização de encostas e margens de rios, por meio de técnicas como bioengenharia, pode prevenir a perda de habitat e proteger comunidades biológicas associadas. Essa abordagem, que combina geologia e biologia, é essencial para preservar áreas de alto interesse ecológico, como Áreas de Preservação Permanente (APPs) ao longo de cursos d’água e/ou encostas.

Alerta

Engana-se quem pensa que consultoria ambiental trata somente de proteção da biodiversidade. Grande parte dos serviços prestados também são feitos para dar segurança à vida e ao patrimônio nos mais variados empreendimentos.

Adicionalmente, os processos geológicos podem ser aliados na criação de estratégias de restauração em ecossistemas costeiros. O estudo da dinâmica sedimentar e das correntes marinhas pode subsidiar projetos de recuperação de manguezais e recifes de corais, ecossistemas vitais para inúmeras espécies. Em áreas salinizadas, o manejo adequado do solo, aliado ao uso de espécies vegetais adaptadas, pode reverter o processo de degradação, permitindo a restauração de ambientes funcionais.

Mesmo em casos de ambientes pouco vistos dentro da consultoria e da assessoria ambiental, como os subterrâneos (e.g cavernas, grutas naturais), os estudos espeleológicos realizados por profissionais do meio físico desempenham papel fundamental na conservação de espécies endêmicas. Essas áreas, muitas vezes negligenciadas, são ricas em biodiversidade e exigem abordagens específicas para garantir sua proteção e restauração.

Talvez o exemplo mais adequado da relação que retratamos aqui é a definição do taludeamento na exploração mineral a céu aberto, que é definida nas licenças ambientais de mineração. A altura e declividade dos taludes, assim como a largura das bermas e o sistema de drenagem, são definidos tanto para segurança como para assegurar o controle sobre processos erosivos e a possibilidade da cobertura vegetal arbórea restabelecer a paisagem. Desta forma, a proposição de medidas de controle de processos erosivos em empreendimentos de exploração mineral evitará o assoreamento dos recursos hídricos e a perda de solo orgânico, que posteriormente poderá ser utilizado para restauração da área degradada.

De forma menos direta, a conservação da biodiversidade também ocorre quando profissionais da área da química propõem soluções para o manejo de efluentes industriais, assegurando que só serão lançados nos recursos hídricos aqueles efluentes com qualidades físico-químicas que não degradam os habitas ribeirinhos, lacustres, ou marítimos.


Projetos socioambientais #

Novamente, nada do que foi exposto acima permaneceria, ou tornar-se-ia cultura empresarial ambiental ou cidadania ambiental, isto é, compromisso intrinsecamente motivado sem esforços educacionais, sem campanhas de conscientização e comunicação social sobre a importância dessas medidas de prevenção e controle dos impactos ambientais.

Por isso, inquestionavelmente a grande maioria das pessoas envolvidas com consultoria e assessoria ambiental trabalhará em algum momento de suas carreiras, ou mesmo ao longo de toda a vida, em projetos socioambientais e iniciativas de cunho educacional. De fato, muitas das conversas com clientes tem conotação educacional de duas vias. Enquanto por um lado o empreendedor explicita as dificuldades de manutenção e crescimento do seu empreendimento, por outro consultores e assessores ambientais tratarão de formas menos impactantes de se desenvolver. É nesse diálogo que emergem ideias inovadoras necessárias.

Dica

É importante garantir que os projetos socioambientais tenham metas claras e mensuráveis para avaliar seu impacto e eficácia ao longo do tempo.


CAA na segurança da vida e do patrimônio #

Além da relação óbvia entre serviços de consultoria ambientais e à proteção da biodiversidade, uma ampla variedade de serviços prestados pelos profissionais deste setor da economia visa trazer segurança ao patrimônio e à vida das pessoas. Laudos ambientais são realizados para conhecer detalhadamente o ambiente, sob o ponto de vista biológico e físico. Isso implica dizer que serão examinadas questões geotécnicas, que conferem (ou não) a estabilidade da área para edificação, especialmente em condições de pluviosidade extrema. São consideradas questões de saneamento básico (drenagem pluvial, abastecimento de água potável, esgotamento sanitário, e gerenciamento de resíduos sólidos), e muitos outros aspectos relacionados a segurança de quem irá trabalhar e/ou viver no local.

Por isso, órgãos públicos federais, estaduais e municipais contam com profissionais das mais diversas áreas técnicas (veja item 9 deste manual) que possam assessorar na análise dos documentos que instruem os processos de licenciamento ambiental.

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