Em um universo humano, em que tudo tem seu conceito imaginado, onde a linguagem rege a realidade, questões do tipo por que fazer isso ou aquilo trazem naturalmente uma conotação filosófica. Aqui nos identificamos apenas dois motivos pelos quais as pessoas optam por trabalhar com consultoria e assessoria ambiental, e um terceiro que é a combinação destes dois.
Trabalhar com CAA para ganhar dinheiro #
Diz-se de qualquer sistema social onde haja um mercado, isto é, um sistema econômico, que ali existem problemas sendo resolvidos. As pessoas e as empresas pagam por aquilo que valorizam. Resolver um problema para alguém, tem valor. Logo, ali se insere a prestação de serviços e a comercialização de produtos. Mas não são apenas problemas que necessitam de nossa atenção. Existem conflitos, questões, dilemas que precisam anos, se não décadas de tratamento para serem sanados. No meio ambiente é exatamente assim.
Portanto, trabalhar com consultoria e assessoria ambiental não é diferente. Você estará solucionando problemas e questões que têm alguma relação com o meio ambiente, e pela solução, ou resolução (parcial ou integral) que você apresentar lhe será dada a devida compensação. Nesse sentido, trabalhar com consultoria e assessoria ambiental traz retorno e lhe permite sim ganhar dinheiro. Contudo, se você resolver trabalhar apenas para resolver os problemas que pessoas físicas e pessoas jurídicas enfrentam, na concepção que os percebem (i.e., resolvendo apenas os problemas dos clientes), você correrá o risco de no futuro, possivelmente não muito longínquo, se encontrar em um mercado que se esqueceu completamente do valor intrínseco da natureza e ficará desatento às inovações necessárias que nos possibilitam ir além das exigências da legislação ambiental, além dos problemas individualizados na concepção. Sob esse paradigma individualista e antropocentrista é possível inclusive conceber um planeta completamente redesenhado e reconfigurado para atender as necessidades de uma única espécie: a espécie humana. Nesse planeta imaginário, tudo que existe de vivo está sob o controle, proteção e uso da espécie humana, de vírus a baleias azuis, incluindo os ecossistemas terrestres e aquáticos. Obviamente, isso não é possível. Mas o que é perfeitamente possível é viver sob esta ilusão, ou pretensão, enquanto a vida se deteriora ao ponto de colapsar. Não seria a primeira vez.
Por isso, quando se trabalha com consultoria e assessoria ambiental sob o paradigma dos problemas ambientais, pode-se ter essa impressão, como se caminhássemos rumo a esse planeta exclusivamente humano, onde nosso papel é identificar onde há problemas ambientais que podem ser resolvidos e controlados por tecnologia e processos humanos. Na medida que esse setor da economia prospera, prosperam os demais, já que toda economia depende da natureza para se sustentar.
Inclusive, se formos pragmáticos, é óbvio e perfeitamente factível limitar-se ao que é exigido por lei, isto é, pela legislação ambiental. Inclusive, alguns argumentariam que é necessário focar exatamente nisso para sobreviver num mercado acirradamente competitivo. Quando tratarmos de precificação, você verá que tudo tem custo, e inovar (i.e., promover nichos emergentes no mercado) para salvar a natureza traz riscos e custos que a maioria dos clientes refutará ou exigirá garantias.
Portanto, uma maneira de pensar que justifica o trabalho com consultoria e assessoria ambiental considera que quem paga a conta é a prioridade. O foco é no cliente. Este sempre tem razão. Agradá-lo é prioritário à condução de processos para soluções maiores do que aquela que o cliente necessita de imediato.
Ora, quem trabalha na área sabe que há um risco imenso nesse paradigma que desgasta o profissional e a empresa, pois o propósito fica gravemente comprometido diante de clientes que pouco entendem ou se importam com questões ecológicas, sejam elas locais, regionais, ou globais. Por que isso traz uma contradição, uma dissonância de significados, na consultoria e assessoria ambiental encontraremos muitas pessoas motivadas a algo mais do que isso.
Trabalhar com CAA para proteger e restaurar a biodiversidade #
Considerando que foram os descasos com a biodiversidade, com os impactos ambientais danosos e o descaso com a natureza como um todo que justamente nos trouxeram os problemas e os dilemas que hoje a legislação procura abordar, e que os clientes precisam resolver, não seria sensato ajustar o foco para que a qualidade dos ecossistemas fosse a prioridade? Nesse paradigma, portanto, a biodiversidade é a prioridade.

Fonte:© Quadrat Ambiental.
Aqui nos deparamos com um paradoxo: O cliente quer pagar o menor preço possível, mas os problemas ambientais são complexos e abertos. Há um espectro de soluções que vão desde um mero atendimento à uma norma específica até verdadeiros projetos de sustentabilidade ambiental que visam resgatar espécies da extinção, por exemplo, ou projetos ainda mais interdisciplinares que transformam a cultura de uma corporação. Podemos redesenhar um aspecto específico de um processo de produção, como podemos redesenhar a planta fabril inteira. Até que ponto seu cliente quer ir? Existe essa opção? Se pagar menos é prioridade, você irá até onde esse valor lhe permitirá alcançar. Mas se o seu cliente quer fazer parte da transformação econômica necessária que está na pauta do desenvolvimento humano nesse planeta, você não precisa e muito provavelmente nem deveria se ater ao escopo definido pela legislação. Por exemplo, ao invés de controlar os parâmetros físico-químicos do efluente para atender uma determinada normativa que determina os máximos e mínimos, eleve o padrão para uma qualidade superior, com menos danos. Você pode propor ir muito além. É aqui que o joio se solta do trigo.
A maioria dos profissionais nesse ramo da economia reconhece que é difícil priorizar a biodiversidade. Mas com jeito se consegue atender também à ela – essa terceira pessoa nessa transação entre cliente e fornecedor – que não tem voz e conta com as outras duas partes para que a melhor decisão de gestão seja tomada. Por isso, a consultoria e assessoria ambiental motivada pela conservação e restauração da biodiversidade é desafiadora e estimulante. Pode-se inovar e superar até mesmo as recomendações consideradas mais progressistas, desde que a parceria entre cliente e consultor adote esse compromisso.
No entanto, o mercado ainda não é plenamente lúcido sobre essas questões de conservação e restauração de ecossistemas. É como se não houvesse relação nenhuma com os produtos beneficiados e manufaturados. Raras são as lideranças corporativas que não sucumbem ao greenwash, ao marketing acima da verdade sobre as relações da empresa com a biodiversidade. É caro, é difícil, é arriscado investir em mais cuidados do que o exigido por lei. Mas raro ainda são os shareholders que estão dispostos a perder dinheiro.
Se sua motivação for excessivamente idealista, e se você como consultor, pressionar demais o cliente, perderá contratos e poderá não vingar no mercado. Precisamos encontrar um equilíbrio de subsistência e compromisso, cuja combinação evolua na direção certa.
Trabalhar com CAA para ganhar dinheiro restaurando e protegendo a biodiversidade #
O melhor dos dois mundos, obviamente, é prosperar economicamente enquanto avançamos em direção a um mundo com a espécie humana realmente integrada à biodiversidade. Embora desconheçamos estudos para sustentar a assertiva, é muito provável que a maioria dos consultores e assessores ambientais trabalhem neste ramo porque desejam, do fundo do coração, que o balanço nos resultados de seus trabalhos seja positivo para seus clientes, para a biodiversidade e para suas empresas e suas famílias.
Da mesma forma o cliente, embora pressionado pelas suas próprias limitações econômicas, também deseja produzir, instalar, construir ou desenvolver o seu empreendimento com o menor impacto ambiental negativo possível enquanto traz o maior impacto ambiental positivo à biodiversidade.

Fonte:© Freepik.
Então, retornamos ao questionamento de abertura dessa seção: porque trabalhar com consultoria e assessoria ambiental?
Prioritariamente porque é necessário para todos. É necessário se adentrar nessa equação em que se encontram desenvolvimento econômico com manutenção da biodiversidade, manutenção dos serviços ambientais, manutenção da qualidade dos ecossistemas e, em última instância, manutenção da resiliência da vida biológica em um planeta finito, isto é, um sistema relativamente fechado. A evolução da vida através de sua biodiversificação é, até o momento, o fenômeno mais resiliente e inteligente que a ciência conhece. Estamos falando de algo capaz de se manter vivo por bilhões de anos. É até difícil de conceber qualquer fenômeno nessa escala temporal. Precisamos da vida muito mais do que a vida precisa de nós.
É nesse intricado universo de possibilidades, incertezas, pressões, custos fixos e variáveis, tecnologias, cadeias produtivas, espécies da flora e da fauna, dinâmica de ecossistemas, maquinário, diagnósticos, mineração de recursos naturais não-renováveis, pluviosidade, topografia, clima, leituras de mundo, regulamentações, multas, processos administrativos, civis e criminais, prazos e até mesmo políticas partidárias… …que diariamente trabalham os profissionais da consultoria e assessoria ambiental, em busca do sustento, sucesso e conservação da vida, do jeito como a conhecemos, biodiversificada.
Se você deseja trabalhar nesse ramo, saiba que o espaço para monotonia é pífio, que o espaço para inovação é infinito e que a natureza, aquela terceira pessoa que não tem dinheiro, mas tem todo o resto, precisa de você, tanto quanto os seus clientes.
